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Dar munições à demonização

Guilherme Rego*

O Chefe do Executivo, Ho Iat Seng, foi a Pequim apresentar os resultados do ano. Ficou claro que a prioridade, tanto do Executivo da RAEM como de Pequim, é o reforço da integridade nacional, por meio de reformas à Lei de Segurança Nacional, leis eleitorais e uma Macau “governada por patriotas”. A capacidade de Ho Iat Seng na execução destas tarefas mereceu elogios por parte de Xi Jinping. Ho, por sua vez, abriu o jogo para um segundo mandato, prometendo resultados “ainda maiores” no capítulo da segurança nacional para o ano que se avizinha. Fica claro que o reforço nesta área não ficará por aqui; há mais a fazer, e mais a mudar para garantir que ideias dissonantes têm perna curta.

Do que sai para fora, fica a ideia de que o uso da autonomia não mereceu grande atenção – não houve reparos nem conselhos, ou até mesmo elogios. A ponte que Macau deve construir com o exterior também não teve grande consideração. Aos olhos de Pequim, o primeiro mandato pós-pandemia tem de continuar a priorizar a alteração do mindset político e de governança na RAEM, impedindo por completo a proliferação de ideias diferentes.

Ho tem sido exímio na demonstração de apoio a Pequim, raramente perdendo oportunidades para promover o seu trabalho no campo da segurança e do patriotismo. Mas esse discurso interno, mais virado para Pequim do que para a população local, tem também consequências na política externa: no Ocidente esse discurso não cai tão bem. Perde-se o interesse na reconstrução das pontes com as RAE. O discurso político atualmente praticado nas RAE só tem energizado as tensões e dá ao Ocidente munições para a campanha de demonização da China. Pequim sabe que Hong Kong e Macau ainda têm capacidade para serem canais alternativos. Mas está mais preocupado em blindar as regiões de influência estrangeira. Inevitavelmente, isso retira-lhes as vantagens comparativas e o carácter distinto. Este protecionismo percebe-se, dado o contexto atual e a dimensão da China, mas o excesso de zelo tem o efeito contrário àquele que se pretendia para as RAE.

*Diretor-Executivo do PLATAFORMA

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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