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De acordo com a “real necessidade”

Guilherme Rego*

No último mês a China tem sido colocada debaixo de fogo pela imprensa portuguesa. Estranha-se a não inclusão de Portugal no segundo lote de países europeus com isenção de visto para a China, dando prioridade a países como Suíça, Irlanda, Hungria, Áustria, Bélgica e Luxemburgo. À Lusa, o embaixador chinês em Portugal disse que a decisão nada tem a ver com um “sinal” da China, falando obviamente da exclusão da Huawei no leilão de 5G, de forma mais rígida que outros na Europa. Na sua opinião, tem tudo a ver com a “real necessidade” da China, que tem maior “frequência de intercâmbio interpessoal e comercial” com esses países – três deles mais pequenos que Portugal, a nível populacional.

Zhao Bentang prevê que Portugal esteja incluído no próximo lote, e quando um embaixador chinês “prevê” uma determinada decisão, é porque há razões para isso – já deve estar tomada. Contudo, coloca-se a questão: quando o embaixador português em Pequim, Paulo Nascimento, disse “não entender” o critério ao deixar Portugal de fora, falou na sequência de uma reunião nesse sentido? Terá o Estado Português exposto o interesse em pertencer ao grupo assim que possível? Empresários portugueses dão o outro lado da moeda, queixando-se de “inércia pura e dura da diplomacia portuguesa”, que está a penalizar os empresários nacionais por “falta de empenho” e por “não fazer devidamente o seu trabalho”. Não me parece que a China tome estas decisões sem prévio acordo com os países incluídos, que devem também apresentar algumas contrapartidas. Aliás, Bentang falou dessa reciprocidade: “Esperamos que os países estrangeiros possam oferecer medidas de facilitação ao povo chinês”.

Portugal acaba de indigitar um novo primeiro-ministro. É natural que a China queira negociar com o novo Governo, e que o de António Costa se tenha abstido de assumir essa pasta sob “clima de gestão”. Além disso, o fomento da relação dificilmente será uma prioridade para os “primeiros 100 dias” do novo Governo português, que terá enormes dificuldades em governar. Há dos dois lados argumentos válidos para a decisão, mas é necessário rever a “real necessidade” de que o embaixador chinês falou… porque essa condição deve-se a um subaproveitamento crónico das relações históricas com a China, do estatuto de Macau, que deve ser utilizado por ambos os lados. Aí o novo Governo português terá responsabilidade perante o futuro da parceria, “da frequência de intercâmbio interpessoal e comercial” com o gigante asiático. Porque do lado chinês não falta vontade, declarada sempre que possível nos contextos políticos oportunos, e escrita nos planos quinquenais da China e de Macau. Apesar da porta estar aberta, Portugal deixou-se ser ultrapassado. A “real necessidade” chinesa coloca Portugal num terceiro patamar; idêntico àquele em que Portugal coloca a segunda maior potência mundial.

*Diretor-Executivo do PLATAFORMA

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