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Mensagens para manter viva a mensagem

Paulo Rego*

Há cerca de duas semanas, os palácios de Pequim e de Lisboa surpreenderam o mundo diplomático com a divulgação pública de uma troca de mensagens entre os presidentes Xi Xinping e Marcelo Rebelo de Sousa. O contexto do 45° aniversário do reatamento das relações diplomáticas criou a oportunidade, aproveitada por ambos, para uma circunstância incomum ao mais alto nível político: passar para a imprensa o conteúdo das mensagens, em vez de as comentar de viva voz. A perceção que fica é a da vontade mútua de reatar relações que, de facto, já foram mais próximas, mais consensuais, e mais confortáveis.

A História recente deste amor sino-lusitano tem tido altos e baixos. A China de Xi Jinping adotou um discurso de afirmação nacionalista, recuperando discursos de vingança pela humilhação histórica imposta pelo imperialismo japonês e ocidental. Paralelamente, o foco na reunificação de Taiwan, as tensões territoriais no Mar da China, e a proximidade com a Rússia de Vladimir Putin, provocaram no ocidente uma sedução pelo radicalismo norte-americano. Washington forçou a nota; aproveitou esse ambiente para vender mais armas a todos os parceiros que circundam a China; promoveu políticas protecionistas contra os interesses económicos chineses; e pressionou a Europa a cortar laços com a China e a bloquear os investimentos em setores estratégicos.

Em finais de 2020, quando a Huawei dava como certo o contrato para a rede de 5G em Portugal, Robert Sherman, embaixador norte-americano em Lisboa, de forma despudorada avisou que Portugal que teria de “escolher” entre o “aliado” Estados Unidos e o “parceiro económico” chinês. O Presidente português reagiu, garantindo que Lisboa era dona e senhora da sua política externa e que não hostilizaria a China. Contudo, a Huawei foi excluída, de forma ainda mais radical do que em outros países da União Europeia, que souberam minorar os danos dessa pressão norte-americana nas relações com Pequim.

Entretanto, o Ministro dos Negócios Estrangeiros português foi multiplicando declarações infelizes e mal vistas na China. Visto de Macau, João Cravinho deu vários tiros no pé, sobretudo após a invasão russa da Ucrânia, cavalgando a onda hostil em relação à China, precisamente quando esta tentava sair do isolamento autoinfligido durante o Covid-zero.

China e Portugal reconhecem em Macau uma História que os aproxima, e um processo de transição consensual – de sucesso – que prolonga as relações de amizade. Essa questão é estrutural, mas também em Macau há circunstâncias infelizes. Por um lado, o isolamento provocado pelo Covid-zero; por outro, uma nova geração de dirigentes que se afastou do projeto lusófono, compreendendo mal o seu significado e a oportunidade que representa. Por maioria de razão, quando outras pontes chinesas para o ocidente são hoje menos sólidas.

A posição oficial, e a prática corrente em Macau, desvalorizam a língua e as comunidades lusófonas; e secundarizam o desígnio político maior das relações sino-portuguesas. Macau pode e deve fazer muito mais por isso; com benefício para todos os lados. A começar pelo efeito positivo da criação de redes intelectuais, culturais, políticas e económicas na diversificação económica, numa visão diferente da autonomia, e na oferta desses canais para o desenvolvimento da Grande Baía e do papel da China no mundo. Nunca é tarde para se corrigir o que tem corrido menos bem. A China e Portugal podem e devem fazer melhor. Em Macau nem sequer se entende qual é a dúvida. Mais do que uma missão, é uma oportunidade única, que está a ser desperdiçada.

*Diretor-Geral do PLATAFORMA

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