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Jogo de mercado

Guilherme Rego*

Quando as novas concessões foram assinadas, sabia-se do risco incorrido pelo Governo de delegar parte das suas funções às seis operadoras de jogo. Iniciava-se uma nova era, onde parecia exigir-se que um Governo de Fichas encenasse o seu próprio fim. Faziam-se contas ao prazo dos contratos, ao calendário da diversificação…e batia certo. Em 2035 queria-se a diversificação económica adequada; mesmo ano em que as concessões terminariam caso fossem prorrogadas. Passados dois anos, já é mais claro que a indústria do jogo será a pedra basilar de Macau por mais tempo.

A estrutura económica da cidade está longe de um futuro diferente, até desinteressada numa realidade alternativa. Não fosse esse o caso, faltam estruturas e talentos para criar receitas extraordinárias que sustentem o nível de vida entretanto cimentado. Por outro lado, atribuindo-se às concessionárias a obrigação de financiar, planear e até executar os planos de diversificação, expõe-se uma lacuna de competência do Governo na gestão e desenvolvimento das indústrias emergentes. Já para não falar nos quadros de chefia da Função Pública que estão a ser recrutados pelas concessionárias, precisamente para montarem os tais “novos departamentos”, determinantes no cumprimento das obrigações contratuais. O atual percurso pode ditar um emagrecimento quantitativo e qualitativo na Administração; com mais certeza ocorre o inverso nas concessionárias, por força dos novos desígnios.

O maior erro está em criar uma diversificação que só vive da imagem. Não se traduz em números. Importante também é perceber que as pequenas e médias empresas têm de ser parte ativa do futuro.

Mesmo que caiba apenas ao Governo um papel de policiamento do setor privado, há outros perigos inerentes à estratégia, a começar pelo óbvio conflito de interesses. Nas reuniões de projetos com as concessionárias, é raro o setor público querer ouvir falar de receita; normalmente até pede mais dinheiro para os eventos, despreocupados com o equilíbrio financeiro. Dá a sensação de que, desde que se mostre a Pequim que se está a fazer… está tudo bem. Quando as concessionárias fecham a torneira criam-se tensões dos dois lados, porque também não se pode pedir que criem novas linhas de negócios, onde não há negócio.

O Governo terá de repensar esta cooperação, mais tarde ou mais cedo. Se as novas infraestruturas e serviços a cargo das concessionárias não faturarem, a diversificação não passa de uma ilusão. A economia não cresce, os empregos estagnam, e continua a formatar-se uma sociedade que só vive do turismo, ou de subsídios.

O maior erro está em criar uma diversificação que só vive da imagem. Não se traduz em números. Importante também é perceber que as pequenas e médias empresas têm de ser parte ativa do futuro. Tem de se criar o espaço para que se possam reinventar, juntando-se aos esforços conjuntos do Governo e das concessionárias. A diversificação não pode ser combinada a dois, nem é essa a base do conceito. É preciso que o terceiro ‘player’ sinta que tem um lugar à mesa, que lhe dão meios para fazer a diferença a nível local e regional. Tal como o jogo está a aprender a viver do mercado de massas, também Macau tem de aprender a desenvolver o seu tecido empresarial.

*Diretor-Executivo do PLATAFORMA

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