O cessar-fogo é uma excelente notícia, contudo, qualquer que seja o desfecho, as consequências desta guerra são incontornáveis. Há quem diga que Trump se ajoelha perante Netanyahu; que não tem estratégia nem objetivos; mas não é bem assim; essa é uma visão simplista – incompleta. Telavive terá precipitado o ataque – Fúria Épica – quiçá mesmo a tática militar e a narrativa messiânica; mas Washington é refém da sua própria Administração: messiânica e belicista.
A Guerra Santa, vociferada por Pete Hegseth, secretário para a Guerra, dissimula – mal – o apetite voraz contra a presa maior: China, o império do mundo novo. Raptar Maduro, bombardear o Irão, ameaçar Cuba… são tiros de um combate global, sem fronteiras. Nos seus termos existencial, porque o velho império está em declínio.
As áreas de influência de Pequim são hoje tantas que o susto tomou mesmo conta do líder atlântico. O poder militar da China não faz face a uma confrontação direta com os Estados Unidos; claramente, o que tem maior poderio e o único com projeção verdadeiramente global. Mas não é preciso; há outras armas em que a China é grande – e cada vez maior.
A multiplicação de alianças geoestratégicas, o disparo tecnológico, o crescimento económico… e a estabilidade política do regime de partido único explicam bem o que aí vem. E, por trás da cortina, o real motivo pelo qual Trump se atira à guerra de cabeça.
Seja qual for o destino no Médio Oriente, Trump já perdeu tanta coisa que pouco ou nada lhe resta
O neoliberalismo, assustado com o ciclone histórico que sopra a oriente, veste a pele neofascista, traveste-se de cruzada religiosa, e ataca com a ilusão da força bruta. Tem-na, de facto; mas não chega.
Quanto maior é hoje essa evidência, em ambos os lados da barrica, cresce nos quatro cantos do mundo a consciência de que, seja qual for o destino no Médio Oriente, Trump já perdeu tanta coisa que pouco ou nada lhe resta.
Mal ou bem, o ocidente tinha uma vantagem: as democracias liberais vendem o que falta aos regimes autoritários. Não cabe aqui discutir se é propaganda ou bem maior – que até é. A questão central é que Trump deita por terra a sedução do valor mais afirmativo que tinha para empunhar o desnorte das armas, com o discurso negativo que o ocidente há muito enterrara.
Resultado: politicamente já perdeu. Por muitos mísseis que continue a lançar, jamais derrubará por essa via a China e a Rússia – a menos que mergulhe no suicídio nuclear coletivo. Nessa altura já não há nada a discutir. Indiscutível é que, vinda de onde vier, a resposta surgirá nos mesmos termos.
Trump ouviu Benjamin – o anjo mau – e teve um sonho: chegar a Pequim com a cabeça de Maduro numa bandeja; a de Khamenei na outra; a Europa a seus pés, e o povo americano rendido. Saiu-lhe foi o tiro pela culatra; acorda agora para o pesadelo: O Irão não cai, a China porta-se como o único adulto na sala e acumula respeito internacional; a Europa vira costas ao neofascismo trumpista, o Vaticano já o demoniza… e cresce a contestação interna.
O movimento “No Kings” mostra que, como sempre na História dos impérios, o colapso na exportação da guerra é o gatilho que faz implodir os ditadores nas mãos do seu próprio povo. Não é assim na Rússia, ou na teocracia iraniana, mas é assim nas democracias liberais.
Essa, de facto, é vantagem que têm relação aos outros regimes: as pessoas sabem o que perdem quando elegem quem lhes tira o tapete à liberdade, aos direitos, e ao orgulho de dizer ao resto do mundo que representam o pior sistema de todos, tirando todos os outros. Trump tirou-lhes isso – é o grande traidor do sonho americano e; nesse sentido, o aliado mais inesperado da China e da Rússia.