Donald Trump chega a Pequim fragilizado. O ataque ao Irão pretendia encostar à parede o aliado chinês no Médio Oriente, mas o tiro saiu-lhe pela culatra. Afinal, chega a pedir ajuda para reabrir o Estreito de Ormuz, problema que não tinha antes do beco em que se meteu.
Não é por acaso que, na semana anterior, o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês recebeu o seu homólogo iraniano. Com aquele sorriso seráfico que lhe é peculiar, Xi Jinping, vai cobrar cara a ajuda que lhe pede agora o “amigo” americano.
Três conclusões são nesta altura óbvias: primeiro, Teerão vai conseguir um programa nuclear pacífico – Wang Yi foi claro nesse ponto. Segundo, Washington vai ter de aliviar a pressão sobre Taiwan – não tem margem para outra coisa. Por último – não menos importante – se Trump vem transacionar e fazer negócios, como é seu timbre e anuncia a comitiva comercial de alto nível que traz consigo, vai ter de acabar com a chantagem das sobretaxas comerciais.
Bruxelas está cada vez mais longe de Washington, mas não necessariamente mais próxima de Pequim
Vladimir Putin também se deita em maus lençóis. A caminho do quinto ano da invasão da Ucrânia, já precisa da ajuda de Trump para comemorar o Dia da Vitória sem que os drones de Zelensky estraguem a festa na Praça Vermelha. Seja qual for a saída para a “burrada especial” em que se meteu, é hoje consensual que Moscovo não tem capacidade para vergar a Ucrânia no teatro de guerra.
Entretanto, Putin pisca o olho a Bruxelas. O problema é simples: a Ucrânia é hoje provavelmente a maior potência militar europeia; logo, quem atacou Kiev está hoje em pânico perante a evidência de que Zelensky se transforma no novo guru da estratégia de segurança no Velho Continente.
É verdade que Pequim também tem uma fatura a pagar: a Europa está de pé atrás com Pequim e Zelensky não se vai esquecer da parceria eterna entre Xi e Putin. Contudo, Pequim e Moscovo não são ideologicamente assim tão próximos; tem muito mais a ver com a circunstância do que com uma crença bélica, que não faz parte do modelo chinês de globalização. E isso acabará por se fazer sentir.
Quando olhamos para o cenário a seguir a estas duas guerras, Trump e Putin bem podem dar as mãos e derramar lágrimas de crocodilo. Por contraponto, o “Dragão” está cada vez menos adormecido; e nem sequer teve de cuspir fogo para bater as asas.
O maior problema de Xi está agora na Europa. Um gigantesco mercado consumidor – e repositório de valores – que finalmente se prepara para assumir a sua própria autonomia estratégica. E este é o fiel em que Pequim balança.
Bruxelas está cada vez mais longe de Washington, mas não necessariamente mais próxima de Pequim. Do ponto de vista ideológico, e da política de alianças, há motivos para essa distância; difícil de contornar enquanto o bloco alternativo da nova ordem mundial não mudar algumas práticas e narrativas.