A recusa do Governo em avançar com uma nova ronda de cartões de consumo é mais do que uma decisão orçamental. Marca uma mudança política: a tentativa de abandonar estímulos generalizados e regressar a uma abordagem mais seletiva do apoio social.
Durante a pandemia, os vales de consumo cumpriram o seu papel – um mecanismo de emergência para sustentar o consumo interno, apoiar PME e transmitir confiança num período de paralisação económica.
A proposta apresentada em interpelação escrita pelo deputado Chan Hao Weng, ligado à ATFPM, parte de um argumento compreensível: o custo de vida continua elevado e os combustíveis pressionam os orçamentos familiares. Mas responder a problemas estruturais com transferências universais levanta dúvidas sobre eficácia, sustentabilidade e justiça distributiva.
Há cerca de um mês sem secretário para a Economia e Finanças, a cidade atravessa uma fase em que PME, consumo local, crédito e confiança pedem coordenação política
O Governo parece reconhecer isso ao preferir avaliar medidas existentes, em vez de abrir nova ronda de estímulos. A mensagem é clara: os recursos públicos devem ser mais direcionados, privilegiando famílias vulneráveis – idosos, agregados monoparentais ou pessoas com deficiência.
Macau continua a ter reservas robustas, mas enfrenta desafios: modelo económico dependente do Jogo, recuperação desigual do consumo local e a diversificação que avança lentamente. Neste cenário, insistir na distribuição periódica de cheques cria uma sensação temporária de alívio sem resolver problemas de fundo.
O desafio do Governo será provar que a rejeição de novos cartões de consumo faz parte de uma estratégia mais ampla. Porque, se os estímulos desaparecem sem políticas capazes de fortalecer a economia real e apoiar as PME, a mudança de discurso arrisca parecer apenas contenção financeira.
Macau pode dispensar uma nova ronda de cartões de consumo. Não pode é dispensar liderança. Há cerca de um mês sem secretário para a Economia e Finanças, a cidade atravessa uma fase em que PME, consumo local, crédito e confiança pedem coordenação política.
A máquina administrativa continua a funcionar, mas falta-lhe direção política. E, nesta fase, recusar distribuir mais só faz sentido se houver alguém a preparar melhor.