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O vício da guerra

Fernando M. Ferreira, Subdiretor

A guerra tem uma vantagem política perigosa: simplifica tudo. Divide o mundo entre amigos e inimigos, transforma dúvidas em traições, substitui negociação por força e dá aos líderes uma aparência de determinação. Por isso é tão difícil sair dela. Não apenas porque os conflitos têm causas profundas, mas porque há sempre quem aprenda a viver politicamente dentro deles.

O possível entendimento entre os Estados Unidos e o Irão deve ser lido a partir desta realidade. Mais do que celebrar ou rejeitar o acordo, antes de ele existir plenamente, importa perceber o que está em causa: a tentativa de travar uma espiral que já ameaça demasiadas frentes ao mesmo tempo. Irão, Israel, Líbano, Gaza, energia, inflação, eleições, alianças militares… no Médio Oriente, uma crise raramente fica limitada ao lugar onde começou.

Neste contexto, a diplomacia não é um gesto de generosidade – é um exercício de contenção. Ninguém chega a uma mesa destas por idealismo puro. Chega-se porque a alternativa tornou-se demasiado cara, imprevisível ou inútil. Esse é precisamente o valor de um acordo: não resolve todos os problemas, mas impede que cada problema se transforme numa nova guerra.

O risco está nos que confundem segurança com escalada permanente. Há lideranças que parecem confortáveis apenas quando a tensão aumenta, quando o inimigo se mantém à vista e qualquer compromisso pode ser apresentado como fraqueza. Essa lógica é devastadora. No curto prazo, pode render ganhos internos; mas empobrece países, destrói sociedades e torna impossível qualquer arquitetura regional estável.

O verdadeiro teste não é saber se os líderes conseguem iniciar uma guerra. Isso quase todos conseguem. O teste é saber se têm coragem para sair dela sem fingir que venceram tudo

O Médio Oriente conhece bem esse ciclo. Cada guerra é apresentada como necessária, cada operação militar como decisiva, cada adiamento da política como inevitável. Depois, contam-se os mortos, reconstroem-se cidades, multiplicam-se ressentimentos e prepara-se a crise seguinte. A promessa de segurança absoluta acaba muitas vezes por produzir insegurança permanente.

Também por isso, qualquer tentativa de negociação deve ser protegida do ruído dos que ganham com o fracasso. Não porque um acordo, por definição, seja justo ou suficiente. Mas porque a ausência de acordo é quase sempre ocupada por quem prefere a linguagem das armas.

A questão palestiniana continua a ser a ferida aberta que nenhuma solução regional pode fingir ignorar. Precisamente por isso, é ainda mais urgente reconstruir espaço político. Sem negociação, restam apenas escombros, retaliações e discursos de vitória sem paz.

O verdadeiro teste não é saber se os líderes conseguem iniciar uma guerra. Isso quase todos conseguem. O teste é saber se têm coragem para sair dela sem fingir que venceram tudo. No Médio Oriente, como em tantas outras regiões, a paz não falha apenas por falta de acordos. Falha porque demasiados atores fizeram da guerra um hábito, um instrumento e, em alguns casos, uma forma de vida.

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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