Macau precisa de mais fins de semana assim. Não apenas porque quase 20 mil pessoas passaram pela Rua da Felicidade durante três dias de cocktails, música, mercado criativo e animação noturna; mas porque eventos deste género mostram o que pode ser uma cidade viva. Com identidade, oferta própria e capacidade para juntar residentes e visitantes num mesmo espaço; sem depender do Jogo, dos centros comerciais ou de campanhas artificiais de consumo.
A “Felicidade Tipsy Weekend” teve esse mérito. Pegou numa das ruas históricas mais reconhecíveis de Macau e devolveu-lhe movimento, noite, curiosidade e contemporaneidade.
Não tentou apagar a memória do lugar; procurou atualizá-la. Ao cruzar cocktails inspirados em sabores locais, música, artistas, comércio de bairro e experiência urbana e noturna, mostrou que a tradição não precisa de ficar congelada numa fotografia antiga. Pode ser reinterpretada, vivida e consumida de outra forma.
Uma melhor Macau constrói-se com experiências; com ruas onde apetece ficar; com bairros que têm vida depois do jantar
Os Kai Fong souberam interpretar bem o potencial da Rua da Felicidade e deram forma a uma iniciativa que juntou comércio, cultura, lazer e consumo local. O apoio dos diferentes serviços do Governo foi igualmente importante, porque eventos desta natureza exigem confiança institucional. Quando associações locais, empresários e Administração Pública trabalham no mesmo sentido, a cidade ganha.
Uma melhor Macau constrói-se com experiências; com ruas onde apetece ficar; com bairros que têm vida depois do jantar. Com eventos que dão aos turistas uma razão para prolongar a estadia e aos residentes uma razão para não atravessar a fronteira ao fim de semana.
É preciso criar motivos para ficar. E as pessoas ficam quando há coisas interessantes para fazer, quando a cidade oferece novidade, ambiente, convivência, descoberta. Quando deixa de ser apenas o lugar onde se trabalha durante a semana e volta a ser também o lugar onde se quer passar o fim de semana.
Eventos como este não resolvem, sozinhos, os problemas estruturais da economia local. Mas mostram que há espaço para uma economia noturna mais consistente, para uma utilização mais inteligente dos bairros históricos, para uma articulação real entre cultura, turismo e PME. Mostram também que os residentes respondem quando a oferta é atrativa.
Macau tem falado muito de “Turismo+”. O conceito só faz sentido se sair dos comunicados e ganhar corpo na cidade. Turismo mais cultura, mais comércio local, mais gastronomia, mais música, mais noite, mais bairro, mais identidade. A Rua da Felicidade deu uma amostra desse caminho. Falta garantir que não tenham sido apenas três dias.