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O aliado incómodo

Fernando M. Ferreira, Subdiretor

Há momentos em que uma relação política se revela pelo desconforto que já não consegue esconder. A chamada telefónica em que Trump terá repreendido duramente Netanyahu por causa da intenção israelita de atacar alvos do Hezbollah em Beirute é um desses momentos. A linguagem atribuída ao presidente norte-americano pode ser grosseira, mas o sinal político é claro: Netanyahu deixou de ser apenas um aliado difícil; passou a ser um problema para a Casa Branca.

O ponto essencial não está no tom da conversa. Está no facto de a Administração Trump perceber que a lógica permanente de escalada militar não ameaça apenas Gaza, o Líbano ou o próprio futuro de Israel.

Ameaça os interesses americanos, as negociações com Teerão, a estabilidade regional e, inevitavelmente, a economia global. Quando uma operação militar em Beirute leva o Irão a suspender contatos com os Estados Unidos, deixa de ser apenas uma decisão israelita; passa a ser uma crise internacional.

Netanyahu causou danos profundos a Israel e à forma como a causa judaica é vista no mundo. Mas talvez a questão seja ainda mais grave. O primeiro-ministro israelita construiu a sua sobrevivência política sobre uma guerra permanente, sobre a recusa de qualquer horizonte diplomático sério e sobre a ideia de que toda a pressão externa pode ser neutralizada invocando-se a “segurança”.

Durante muito tempo, essa estratégia funcionou; hoje, começa a transformar Israel num aliado cada vez mais pesado, mesmo para quem sempre lhe garantiu cobertura política, económica e militar.

Uma chamada dura, uma pausa nos ataques; uma declaração optimista, seguida de nova escalada. Isso não é diplomacia; é contenção de incêndios

Trump não descobriu subitamente os limites humanitários da guerra. A sua irritação parece ter menos a ver com princípios e mais com consequências.

Se o conflito complica as negociações com o Irão, agrava a instabilidade no Médio Oriente, pressiona os mercados e prejudica a percepção económica nos Estados Unidos, deixa de ser uma questão distante; passa a ser um problema doméstico americano. É precisamente aí que Netanyahu se torna incómodo: não por desafiar valores, mas por criar custos.

Por mais estratégico que seja, nenhum aliado deve ter carta branca para arrastar uma região inteira para a instabilidade. A relação entre Washington e Telavive vive desta ambiguidade: apoio quase incondicional em público, irritação crescente em privado.

O risco é que tudo continue a ser tratado como gestão tática: uma chamada dura, uma pausa nos ataques; uma declaração optimista, seguida de nova escalada. Isso não é diplomacia; é contenção de incêndios. E, no Médio Oriente, demasiadas potências têm confundido labaredas com o fogo.

Netanyahu pode ainda sobreviver politicamente a mais uma crise; Trump pode apresentar-se como o homem que travou uma ofensiva sobre Beirute. Mas a pergunta essencial permanece: até quando Israel continuará refém da sobrevivência política do seu primeiro-ministro? E até quando os Estados Unidos – e todos nós – aceitarão pagar o preço dessa escolha?

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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