Há um tripé de bom senso que não está explícito no projeto do Plano Quinquenal; mas que tem de nos conduzir a todos, sob pena de todos falharmos: convencer o capital, multiplicar a massa crítica, subtrair barreiras na Grande Baía, preencher os buracos que enterram a oportunidade.
Esse compromisso tem de juntar Governo Central, autoridades regionais e interesses locais: dos lobbies tradicionais aos operadores de Jogo, passando pelo capital, universidades, comunicadores… sociedade civil em geral. O Governo não faz negócios, nem milagres; não diversifica por decreto nem por estalar os dedos. Mas tem de se focar nesse consenso; negociar, seduzir atores políticos, económicos e sociais; em Macau, na Grande Baía, e na Lusofonia. No fundo, fazer política.
O plano está percebido, está finalmente em debate público; merece agora atenção e reflexão. Sobretudo, pede calendarização, metas e instrumentos… compromisso. Não há planos perfeitos, mas há horizonte e racional. A missão é desbravar caminho, derrubar obstáculos legais, culturais e mentais; convencer parceiros regionais, nacionais e estrangeiros.
Há outro fator crucial: o tempo. Dois anos de mandato; este Governo não tem tempo para pedir tempo; porque, se o tempo se arrasta; traz depressão e descrença. Enquanto não se mostram resultados; é preciso vender a expetativa.
O Governo tem de ser proativo na negociação com os parceiros regionais e o Poder Central; é preciso acelerar a circulação de bens, produtos e pessoas na Grande Baía
Vejamos um de três exemplos: logo no início do mandato, Sam Hou Fai anunciou equipamentos lúdicos e culturais nas duas faces do rio. Perfeito; faz sentido e é sedutor. Ainda hoje não se sabe quando, como, nem quanto custa. Promotores, urbanistas e arquitetos; população em geral… esperam pela demora.
Como se acelera a perceção? Comunicação e engajamento: concursos de ideias, debates; fomento do interesse e da credibilidade. Se o Governo falar disso, se partilhar formas de pensar e fazer, conquista crenças e alianças.
Segundo exemplo: fundo de orientação estatal. Há muitas dúvidas sobre a sua eficácia; mas pode, de facto, ser um instrumento útil; tem tradição e provas dadas no Continente. Agora é preciso acelerar regras, timings e métodos. E é preciso um roadshow para o capital privado: local, regional, nacional e estrangeiro. Sem isso não há projetos.
Terceiro exemplo: diz o Plano Quinquenal que se vai “continuar a fomentar” a captação de talentos. A sério? Continuar, hoje, quer dizer bloquear – é o que se tem feito. E o que é preciso é mesmo desbloquear; naturalmente, encontrando formas de proteger o emprego local. Não é fácil; mas é esse o segredo. O que não vale a pena é fingir que se faz diferente com a mesma gente e a mesma mentalidade.
O Governo tem de ser proativo na negociação com os parceiros regionais e o Poder Central; é preciso acelerar a circulação de bens, produtos e pessoas na Grande Baía.
O capital estrangeiro tem de perceber que investir em Macau, Hong Kong ou Cantão é ter acesso a um mercado de 80 milhões de pessoas – 15% do PIB da China; tem de acreditar que pode importar massa crítica; monetizar o investimento e retirar lucros. Pode mesmo? Só quando; e se puder… quando estiverem reunidas reais condições de previsibilidade e sustentabilidade. Este é o tempo desse compromisso.