O pior cego é aquele que não quer ver. Não dá jeito, não sabe o que fazer; tapa os olhos com a peneira a ver se a realidade não passa. Mas a pior decisão é aquela que não se toma; o problema arrasta-se, incha e mata. O mercado não trata de tudo; por vezes, só piora. E, quando o melhor que se pode fazer é não fazer nada, só pode mesmo piorar.
“Ponham o pé fora dos confins do escritório e vão ver o que se passa”. Não é queixa anónima, opinião no jornal ou desabafo de rua; o recado é mesmo oficial e pesado: Zhang Yingjie, vice-diretor do Gabinete de Ligação, num encontro sobre as “Duas Sessões”, ditou os sete mandamentos dos governantes. Não saiu nas notas oficiais; teve destaque na TVB, de Hong Kong; e repercussão em Macau. Fechar os olhos a isto anuncia consequências.
No San Wa Ou, jornal de ideologia continental, deixa claro em editorial a azia que o recado denuncia. Política palaciana, teses, discursos e planos; pouca colagem à realidade, ao presente que dói e preocupa. Macau enfrenta “inúmeras contradições”, diz Zhang. Não está a falar de segurança; do inimigo externo nem da culpa do capitalismo. Está a falar do Governo – da falta dele.
No Macao Daily News, um editorial arrasa o fim das conferências sobre criminalidade. Mais do que o tema em si, o ataque é feito à falta de transparência; verdadeiro manifesto contra a desconexão com o interesse público. Aparentemente assinado por pseudónimo, só pode ser publicado com aval do diretor. Lok Po sabe bem o que se passa; e o que pensa o Poder Central.
Macau precisa de um plano de contingência, política virada ao presente enquanto o futuro não chega
Os problemas são muitos; não o PIB, de vento em popa na vela do Jogo; mas todos os outros: distribuição da riqueza, crise de expectativa, falta de investimento, diversificação a ver navios… O turista come tapau, mas já nem isso é negócio, arrasado pela concorrência que atravessa fronteiras.
Tai Kin Yp, oficialmente deprimido, sai pelo próprio pé; deixa uma bomba relógio. Diz-se nos bastidores que a favorita é O Lam, que sairia da pasta que distribui para aquela que tem de fazer dinheiro. É um peso pesado, bem relacionada no Poder Central; mas não tem varinha mágica, nem quer ser o próximo bode expiatório. Esse pode ser Vong Sin Man, presidente da Autoridade Monetária.
O plano do novo ciclo tem racional; diversificação, investir, integração regional, plataforma… Tudo certo. Mas há duas verdades incontornáveis. Primeiro, leva tempo; segundo, é preciso ser rápido e eficaz. São muitos, mas isso não pode bloquear a ação; têm de ser dados, um de cada vez e em força.
Entretanto, o presente é madrasto. Tira o chão que havia e não mostra outra via; que tarda e desespera. Macau precisa de um plano de contingência, política virada ao presente enquanto o futuro não chega. E, a julgar pela clareza oficial do recado; o Governo tem mesmo de perceber o que se passa. Não vá um dia já não se passar nada com ele.