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No beco da diversificação

Paulo Rego, Diretor Geral

Há três condições obrigatórias num plano de diversificação: capital de investimento, capital humano e mercado – consumo interno e/ou exportações. O plano que vem de Pequim tem lógica e racional; aliás, não se vislumbra outro horizonte para lá dos casinos. Contudo, Macau não reúne neste momento nenhum dos pilares que sustente a teoria; e não há secretário milagreiro que resolva o nó górdio.

A eficiência política também conta, mas a questão é sobretudo estrutural; exige ambição e competência no curto prazo – e visão de longo alcance.

O Fundo de Orientação Estatal pretende reunir 20 mil milhões de patacas – capital público e privado – para projetos disruptivos. Mas quem tem projetos credíveis e ambiciosos não quer hipotecar ações a um fundo estatal; prefere vendê-las com liberdade e mais-valia, em curto espaço de tempo.

Quem procura esse tipo de soluções tem projetos mais frágeis e de muito maior risco; aliás, com tendência a não serem sequer aceites. Essa prova está feita no Fundo do Fórum Macau, que avaliou poucos projetos; a maioria deles rejeitados.

O investimento privado está paralisado. Muita gente perdeu dinheiro na bolha imobiliária, em Macau e no Continente; e, com a banca à perna, enfrentam um segundo problema: se investem em novos negócios, não podem depois dizer que não têm dinheiro para pagar os empréstimos imobiliários; e ainda se arriscam a ter de explicar à disciplina nacional onde foram arranjar dinheiro que dizem não ter.

Quanto ao capital estrangeiro, aprende na escola que não se investe numa economia em deflação; tem cada vez mais dúvidas sobre a segurança jurídica e política; e certeza de que não há massa crítica local – nem abertura para a importar.

O Estado pode até alavancar fundos de investimento; mas, sobretudo, tem de criar condições políticas e socioeconómicas para um plano que, sendo racional, neste momento não é real

Finalmente, o consumo está do lado de lá da fronteira, até para os residentes de Macau. Convencer capital a residir em Macau, para vender do lado de lá; sem gestores de topo, rede política, garantias jurídicas e retirada de lucros… é um beco para o qual nem sequer o offshore e a eficiência fiscal oferecem saída. Toda a gente já percebeu isso; quer quem finge vender a ideia; quer quem nega comprá-la.

Urge criar condições para, de facto, atrair capital estrangeiro; é preciso libertar os fundos privados do nó górdio em que se encontram; e nada faz sentido sem garantias de massa crítica; quer no curto prazo, com importação de quadros; quer no longo, com uma exigência académica que não existe e um programa de formação profissional contínua, que tem mesmo de existir.

O Estado pode até alavancar fundos de investimento; mas, sobretudo, tem de criar condições políticas e socioeconómicas para um plano que, sendo racional, neste momento não é real.

Há outro beco para o qual não se vê saída: é por demais evidente que o poder local nada faz sem o poder central; mas continua-se a fazer de conta que o Palácio da Praia Grande não quer ou não sabe melhor. Até pode ser verdade; mas também é verdade que quem os escolhe tem uma de duas obrigações: ou encontra quem saiba fazer; ou assume a responsabilidade e faz melhor.

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