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Longa vida ao Blue Card de primeira

Paulo Rego, Diretor Geral

O cartão de talento não é um debate teórico; é uma decisão central que em breve fará o seu caminho de implementação. No atual ambiente político, não é crível que o vice-presidente da Assembleia Legislativa, Ho Ion Sang, o defendesse publicamente sem rede decisória; muito menos em Pequim, nas “Duas Sessões”. E é cada vez mais óbvio e consensual que não se pode diversificar a economia – novas áreas, modelos e sistemas – nos limites da mão-de-obra da velha realidade.

O que mudou foi a perceção política, não foi a resistência conservadora; essa, está aí para ficar e durar – e até se percebe. Aliás, o recrutamento da massa crítica externa não será excessivamente acelerado, muito menos chegará em catadupa. Será medido e ponderado, sob pena de uma disrupção social que não serve ninguém.

O drama não está sequer na mão-de-obra estrangeira, seja ela lusófona, ou de outra origem qualquer. Essa tem necessariamente de acompanhar o investimento externo, desejado para alavancar novas áreas da estratégia “1+4”; para cumprir o bilinguismo e a plataforma lusófona – que agora também quer ser hispânica.

Por ser bem-vindo e necessário, o cartão de talento merece o epíteto de Blue Card de primeira – não é um BIR de segunda

O pânico que apertou o funil vem do tecido laboral local, facilmente ultrapassado pelos compatriotas do Continente. Pela sua dimensão, grau de preparação, competitividade e guanxi, se virem escancarada a fronteira inundam o mercado laboral e tomam conta dele. É nesse contexto que o patriotismo e a birofobia ditaram também o fim da descriminação positiva para portugueses – e lusófonos – exceção sensível e difícil de explicar quando se barra migrantes chineses.

A autorização temporária de trabalho (Blue Card) em vez da residência plena (BIR) não é o problema em si. O que não se pode é atrair massa crítica qualificada negando-lhe que traga família, privando-a do acesso à Educação e à Saúde… Já para não falar do caráter escravizante da autorização que é concedida à empresa – e não trabalhador. Além da questão moral, isso limita a mobilidade entre empregos, decisiva para uma sociedade moderna, criativa e competitiva, que privilegie a meritocracia.

Por ser bem-vindo e necessário, o cartão de talento merece o epíteto de Blue Card de primeira – não é um BIR de segunda. Pelo menos no curto prazo, a diversificação económica não carece de direitos políticos, cheques pecuniários ou residência permanente. Basta a contratação justa, digna e aliciante. Talvez mais tarde a necessidade de povoar Henquin traga maior condescendência na atribuição do BIR. Não é essa a urgência.

Há um gato escondido com o rabo de fora na Grande Baía. Haja o que houver, a população de Macau terá de se reciclar e dar à perna, porque a competitividade laboral e o ritmo de produção na China está muito à frente desta aldeia rentista. E isso não está a ser encarado de frente.

Certo é que o cartão de talento é um passo em frente; a importação de massa crítica qualificada faz parte da solução – não do problema. Esse tem mesmo de ser atacado com formação profissional intensiva, mudança de mentalidade… e rede de proteção social. Porque vai mesmo doer – como a cobra quando muda de pele.

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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