A competição entre as cidades da Grande Baía é cada vez mais evidente; e, por maior que seja o potencial da complementaridade, vista a partir de Pequim, ela será naturalmente construída a partir dos interesses concorrentes em cada uma das nove cidades e duas regiões autónomas que compõem uma região económica especial com mais de 80 milhões de consumidores e 14 por cento do PIB da China. Macau tem rapidamente de perceber isso, se não quer ser engolida por uma realidade que a ultrapassa.
A rápida expansão de resorts integrados “diluiu o toque local” da cidade, comenta o ex-secretário das Finanças de Hong Kong, John Tsang, numa publicação no Facebook. Tsang, governante que mais tempo ocupou aquele cargo, considera que a escala e a opulência dos novos resorts integrados em Macau rivalizam com os mais relevantes polos de luxo no mundo. Contudo, não lhe dá valor: “Fui a Macau há alguns dias; não ia lá há muitos anos […] Não entendo nada de jogos de azar; e, além disso, não tenho interesse neles”.
Sintomático. O que Tsang se esquece de dizer é que Hong Kong lutou muitos anos para ter também licenças de jogo, como aliás Hainan. Porque mesmo sendo um centro financeiro internacional, e da osmose perfeita com Shenzen, vila piscatória que se transformou num polo industrial e na maior “fábrica” de start-ups do mundo, a cidade vizinha no Delta percebe bem o valor económico e turístico dos casinos.
Sejamos claros: haja casinos. As receitas do Jogo em Macau, no primeiro semestre, subiram 13,11 por cento face a igual período em 2025, ascendendo a 51,19 mil milhões de patacas. Sabe-se há muito que há no Governo Central um tenso debate ideológico sobre a legitimidade da indústria.
Mas Pequim também sabe que, sem ela, Macau não tem a mínima condição de sustentabilidade, muito menos de crescimento. Aliás, a própria diversificação económica tem de ser alavancada no EBITDA dos casinos. O debate ideológico é legítimo e compreensível, por maioria de razão num regime comunista; contudo, as operadoras merecem respeito e reconhecimento. Sem elas era o caos.
Pequim tomou uma decisão coerente e racional: Macau tem de andar com duas pernas. Se é verdade que tem mesmo de diversificar a economia, desenvolvendo novas indústrias no contexto da integração regional e da plataforma lusófona, tem também de preservar o Jogo como motor essencial do PIB; e, até, da diversificação.
Como explica José Alves, reitor da Faculdade de Gestão da Universidade Cidade de Macau, só há sete estruturas capazes de comprar serviços e alavancar investimentos em Macau: seis operadoras e o Governo. Não podia ser mais esclarecedor, num debate no Estado da Região, programa da TDM.
Onde é que Tsang tem razão? A permanente esquizofrenia de uma cidade de Jogo que está sempre preocupada em provar que não é isso, tem de ser resolvida. Porque também é verdade que é muito mais do que isso – ou tem de ser.
E tudo o que é – ou pode ser – tem de ser projetado como mais valia na sua integração regional: autonomia, regime jurídico de raiz ocidental, eficiência fiscal, História e cultura, relação com o mundo lusófono… e, obviamente um dos maiores PIBs per capita do mundo. E esse, goste-se ou não, deve-se ao Jogo.
Quem tem, tem; quem não tem, jogue com o que tem.