Não há datas oficiais; aliás, a comunicação institucional volta a soterrar-se num limbo que faz lembrar outros tempos – de fim de ciclo. Há indicações, expetativas nos bastidores: Xia Baolong, diretor do Gabinete para Hong Kong e Macau, deve estar a chegar. Já no ano passado cá esteve, por volta desta altura; nesse sentido, não há grande novidade.
Mas há um novo contexto: nos primeiros cinco meses do ano, multiplicaram-se reuniões em Pequim com secretários deste Governo; e há um secretário por nomear; a pasta da Economia e Finanças está vaga há quase dois meses.
Formalmente, cabe ao Chefe do Executivo preencher o vazio; na prática, nem o poder local nem o central parecem preocupados em manter a semiótica da autonomia. Ou, pelo contrário, estão é apostados em mostrar como ela (não)funciona.
Xia Baolong chega no início da semana; lá para o final da semana espera-se o nome que substitui Tai Kin Ip. O preço desta cadeia de comando é o elo da responsabilidade: da Economia para a Praia Grande; daí para o Gabinete de Ligação, que responde ao Gabinete de Hong Kong e Macau; que está debaixo do Conselho de Estado… e de Xi Jinping. Se a diversificação económica e Hengqin continuam neste limbo, vai ser de bradar aos céus.
Percebe-se a preocupação: o cargo é sensível e cada vez mais relevante, no contexto das nuvens que pairam sobre a diversificação; e marca a terceira mudança no Governo do novo ciclo: saída de André Cheong para a Assembleia Legislativa, deslocação de Wong Sio Chak para a Administração e Justiça; e entrada de Chan Tsz King para a Segurança.
Há outro gato escondido nesta decisão: manter ou não um Governo de burocratas, com pouca intuição política e nenhuma experiência empresarial
Está também no topo da estratégia a cereja amarga de Hengqin, onde se nota a forte pressão de Pequim num plano de investimentos que dá sinais de impossibilidade. Neste contexto, mais vale decidir tarde, mas bem; do que cedo e mal. Até porque a questão é muito mais de estrutura e conceito do que de nomenclatura.
Há outro gato escondido nesta decisão: manter ou não um Governo de burocratas, com pouca intuição política e nenhuma experiência empresarial. A escolha de Sam Hou Fai, jurista treinado para fechar a porta do gabinete aos bastidores políticos, e aos lobbies económicos, ditou a necessidade de o rodear de quadros habituados a gerir a máquina administrativa, também ela desconhecida do Chefe do Executivo.
A caminho do meio do mandato, urge fazer a reflexão: como fazer uma diversificação económica sem ninguém que perceba de negócios e mercados; sem consciência das linhas com que se coze a aliança entre o plano público e o investimento privado, entre a qualificação laboral e as tendências do consumo.
Mais do que atirar esse peso para as costas do futuro secretário para a Economia e Finanças – injusto e disfuncional – Xia Baolong deve confrontar-se a si próprio com essa (in)decisão estrutural. Se o plano continua a falhar, de nada vale insistir apenas na culpa do poder local.