A mostra, que termina amanhã, junta 34 obras – 16 fotografias de Cássia Schutt e 18 pinturas de Lily Lee – construindo um diálogo visual entre duas abordagens artísticas distintas, num projeto nascido da amizade, da curiosidade e do olhar de duas artistas que descobriram na cultura do chá uma nova forma de compreender a cidade.
Nas fotografias de Schutt sobressaem chávenas, bules, folhas de chá e recipientes, maioritariamente em preto e branco, com algumas imagens a destacar o vermelho como cor dominante. Já as pinturas de Lee remetem sobretudo para as paisagens urbanas de Macau, casas de chá e espaços ligados à ópera cantonense, num registo cromático suave, próximo do pastel, que amplia a atmosfera da exposição.
As obras desenvolvem-se “numa conversa subtil, documentando a presença do chá e das suas tradições na cidade contemporânea”, segundo o manifesto da mostra. O projeto começou a ganhar forma em 2024, quando as duas artistas iniciaram visitas conjuntas a casas de chá de Macau, numa exploração marcada por conversas, observação e descoberta.
Onde quer que exista cultura tradicional, nós gostamos. Acho que essa é a nossa ligação – Lily Lee, pintora
Cássia Schutt, residente na cidade há quase vinte anos, explica que o interesse pelo tema surgiu de forma natural, durante encontros no atelier de Lily Lee: “Ela tinha uma parede cheia de chávenas e comecei a fazer perguntas sobre o chá. Acho que isso nos ligou de alguma forma”, diz a fotógrafa ao PLATAFORMA.
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Lily Lee, formada em Pintura a Óleo pela Universidade de Huaqiao, na província de Fujian, e residente em Macau desde 2004, admite que o fascínio comum pelas tradições locais aproximou rapidamente as duas artistas: “Onde quer que exista cultura tradicional, nós gostamos. Acho que essa é a nossa ligação”.
Foco nos sentidos
Lee descreve os diferentes universos do chá presentes em Macau. “Primeiro, o chá medicinal ou de ervas. Em 2006, o chá medicinal foi reconhecido como património cultural de Macau; em segundo, o chá chinês (…) que serve para o convívio; e finalmente, as casas de chá”, que a pintora relaciona com espaços de ópera cantonese.
Foi precisamente este universo da ópera e das casas de chá que mais surpreendeu Cássia Schutt, já que a “ópera e o chá de ópera foram uma primeira vez para mim”, conta, descrevendo essas visitas como algumas das experiências mais marcantes do processo criativo.
O facto de ambas não terem nascido em Macau acabou também por influenciar o olhar que desenvolveram sobre a cidade: “Porque não somos locais, às vezes o nosso ângulo é diferente do dos residentes”, explica Lee.
Ela tinha uma parede cheia de chávenas e comecei a fazer perguntas sobre o chá. Acho que isso nos ligou de alguma forma – Cássia Schutt, fotógrafa
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Por outro lado, a colaboração trouxe também mudanças na própria abordagem artística de Lily Lee. A pintora explica que estava habituada a trabalhar com tonalidades mais escuras e frias, mas encontrou na sensibilidade de Cássia Schutt uma nova inspiração. “Ela é muito boa com a cor. Isso deu-me paixão para criar outras pinturas”.
Schutt reconhece que, através do conhecimento sobre as tradições do chá de Lee, mergulhou num universo cultural inicialmente distante do seu quotidiano: “Ela ajudou-me muito a compreender este mundo”.
A exposição procura igualmente envolver os visitantes através dos sentidos. As artistas explicam ao PLATAFORMA que pretendem criar uma experiência imersiva, complementada por música e pelo chá servido no dia da inauguração. “Estamos a pensar no som, no cheiro, no toque e nos sentidos”, afirma Lily Lee.
Cássia Schutt acrescenta que experimentou também novas formas de apresentação das fotografias, utilizando suportes de madeira em vez de molduras convencionais para criar “uma atmosfera mais chinesa”.
De acordo com o manifesto da exposição, a exposição nasce de um processo contínuo de descoberta e observação, em que as duas artistas procuram compreender as histórias e os hábitos que existem por detrás das casas de chá.
No entanto, o projeto não está concluído: “É um trabalho em progresso” e um “convite para as pessoas explorarem a cidade”.