Início » Um Século de Memória Industrial Volta a Ganhar Vida em Macau

Um Século de Memória Industrial Volta a Ganhar Vida em Macau

A indústria dos panchões representou, em tempos, uma das três principais indústrias artesanais tradicionais de Macau. Na Sands Gallery, a exposição “A Century of Iec Long Firecracker Factory in Radiance” revisita um dos capítulos mais marcantes da história industrial de Macau. Através de mais de 400 artefactos, documentos e obras, reunidos ao longo de décadas pelo curador da exibição, Ung Vai Meng, e pelo historiador Lai Hong Kin, explora-se o legado da indústria dos panchões e da antiga Fábrica Iec Long.

Plataforma Studio

Organizada pela Sands China Ltd., a exposição conta com o apoio do Instituto Cultural e da Direcção dos Serviços de Turismo, com contributos do Museu de Macau, Arquivos de Macau e da Faculdade de Humanidades e Artes da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau.

DETALHES DA EXIBIÇÃO: 
Até 31 de Agosto de 2026
Sands Gallery, 6º andar, The Grand Suites at Four Seasons
11h00 – 19h00. Todos os dias da semana
Entrada gratuita

Memória Reconstruída Peça a Peça

A exposição “A Century of Iec Long Firecracker Factory in Radiance”, patente na Sands Gallery até 31 de agosto, conta-nos a história dos cem anos da indústria dos panchões em Macau. Através de coleções de arquivo, ferramentas de fabrico, embalagens, documentos comerciais e fotografias, um universo industrial e urbano que se foi gradualmente apagando da memória coletiva é agora reconstruído e trazido de volta à vida.

Ao percorrer a exposição, os visitantes podem descobrir aquilo que tornou a indústria dos panchões tão singular e compreender de que forma esta moldou profundamente a economia, a paisagem e o quotidiano de Macau ao longo do século XX.

Por detrás desta reconstrução histórica está o trabalho desenvolvido ao longo de mais de três décadas pelo curador Ung Vai Meng. O que começou como um interesse pessoal por artefactos históricos, documentos e design de embalagens transformou-se gradualmente numa missão de preservação, reunindo um importante acervo ligado à indústria dos panchões de Macau. À medida que as fábricas encerravam e os antigos trabalhadores envelheciam, Ung percebeu que também desaparecia todo um universo que, no seu auge, sustentou milhares de famílias e representou quase um terço das exportações do território.

A exposição conduz-nos por esse universo com uma proximidade quase íntima: contratos comerciais, negociações entre proprietários e trabalhadores, registos dos guardas noturnos; faturas de gasolina com preços tão baixos que parecem absurdos aos dias de hoje. Cada peça funciona como uma pequena janela para um quotidiano duro e perigoso, não fosse o constante contato com a pólvora. O arquivo fotográfico e cinematográfico reforça essa sensação de viagem no tempo: paisagens industriais que outrora moldaram bairros inteiros reaparecem diante dos nossos olhos, mostrando ruas hoje quase irreconhecíveis.

Depois há a dimensão artística, que atravessa todo o percurso expositivo. Ilustrações minuciosas reconstroem processos de produção, ferramentas e gestos diariamente repetidos pelos trabalhadores.

A própria configuração da Sands Gallery acaba por reforçar esta experiência imersiva. Ung Vai Meng aproveitou a divisão natural do espaço para criar pequenas salas com atmosferas distintas, permitindo-nos percorrer diferentes capítulos da história. Cada sala tem a sua própria identidade e ritmo”.

Para o curador, um dos elementos que mais o fascina são as embalagens em que os panchões eram vendidos. Entre dragões, camelos e pavões, a cor surge como o fio condutor que atravessa a enorme diversidade visual criada para seduzir mercados tão distintos: “Os artistas pensavam muito nestas imagens (…) Observamos diferenças muito claras entre os produtos destinados ao mercado chinês e aqueles produzidos para os Estados Unidos. Revelam diferentes estéticas, hábitos de consumo e até trocas culturais”.

Leia também: A Sands China apresenta a exposição sobre o património dos panchões de Macau na Sands Gallery

No centro da narrativa desta exibição surge inevitavelmente a antiga Fábrica de Panchões Iec Long. Fundada em 1925, tornou-se um dos principais centros de produção de Macau antes do declínio da indústria, a partir da década de 1970. Com os trabalhos de recuperação e preservação dos últimos anos, Ung Vai Meng frisa que o espaço possui um valor patrimonial raro: “Provavelmente a fábrica de panchões mais intacta do Sul da China”; relíquia industrial que hoje se encontra aberta ao público, mantendo áreas originais ligadas às diferentes etapas de produção; dos armazéns aos espaços onde se preparavam os rastilhos e se montavam os panchões.

 

Uma Viagem Pela Memória

Cena 2

Mapas mostram como o crescimento e declínio da indústria dos panchões; e, em paralelo, a Macau de outrora. Na década de 1920, a grave escassez de matérias-primas levou as fábricas a reutilizarem jornais velhos para enrolar os tubos que serviam de invólucro aos panchões.

Cena 3

Ferramentas originais, bancadas de trabalho e ilustrações dos processos de fabrico recriam o ambiente perigoso das antigas fábricas. Os trabalhadores que manuseavam a pólvora negra eram tratados como “reis”; os seus corpos ficavam completamente cobertos de fuligem. Os que trabalhavam com pólvora branca começavam antes do amanhecer, envolvidos por uma fina e perigosa poeira prateada de alumínio.

Cena 4

Fotografias, recibos e outros documentos históricos revelam o dia a dia das fábricas e dos seus trabalhadores. Uma carta enviada por um técnico ao proprietário de uma das fábricas pede que este pague a viagem até Macau a quatro trabalhadores especializados. As viagens podiam custar mais de 3.000 patacas por pessoa, caso viessem de zonas rurais da China.

Cena 6

Identidades gráficas revelam como as marcas de panchões de Macau desenvolveram uma linguagem visual própria para mercados distintos, mas também a cadeia logística da época. Numa embalagem da “Dragon Fire” lê-se: “Fabricado em Guangxi, embalado em Macau” — prova de que na década de 1950 a cidade já funcionava como plataforma de exportação para o interior da China.

A Identidade de Macau no Palco internacional

A exposição ganhou também dimensão internacional através da participação da Sands Gallery na Art Central, em Hong Kong, onde parte da coleção foi apresentada ao lado de obras de três jovens artistas de Macau.

“Ao levarmos esta história para plataformas internacionais, mostramos que Macau não é apenas um destino turístico, mas também tem uma herança cultural rica e distinta”, afirma o vice-presidente executivo da Sands China, Wilfred Wong.

A recepção em Hong Kong surpreendeu o próprio curador. “Não foram apenas visitantes chineses que demonstraram interesse. Muitos visitantes internacionais ficaram fascinados com a exposição; alguns viajaram até Macau propositadamente para a visitar”.

“Espero que residentes e académicos possam compreender melhor a indústria dos panchões e que, através disso, desenvolvam também um maior afecto por Macau”, reitera Ung Vai Meng.

A nível local, a exposição comoveu profundamente os residentes. Um visitante nascido em Macau na década de 1960 descreveu a experiência como “um regresso à infância”, recordando os processos de fabrico em que outrora participou e manifestando a sua gratidão por ver parte da sua própria vida refletida na exposição.

“Foi só por termos vindo à Sands Gallery que ficámos a saber que Macau já teve três grandes indústrias de artesanato”, explica um visitante. “Antes disso, nem o meu filho nem eu sabíamos sequer que elas existiam. Depois de visitar a exposição, o meu filho começou a olhar para a criação artística de forma diferente e desenvolveu uma imaginação muito mais rica.”

Entre os visitantes encontrava-se William Bascaule, diretor da Alliance Française de Macau, que salientou a importância de preservar a memória coletiva. “Parabéns por esta magnífica exposição. É essencial que conheçamos a nossa história.”

Atividades Paralelas

A exposição deu origem a um conjunto de iniciativas académicas e culturais.

Entre elas destaca-se o diálogo académico “Memórias Históricas da Fábrica de Panchões da Taipa”, realizado na Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, que reuniu o curador Ung Vai Meng e Lai Hong Kin para discutirem a herança histórica da indústria através das embalagens e dos testemunhos dos antigos trabalhadores.

Em Hong Kong, a participação na Art Central incluiu também o seminário “A Estética de Uma Polegada Quadrada”, onde Ung Vai Meng explorou um século de cultura visual através das embalagens de panchões produzidas em Macau.

Paralelamente, a MUST acolheu as exposições “Historical Resonance: Firecracker Label Art from Eastern Guangdong”, dedicada à arte das embalagens da região do Leste de Guangdong, e “Timeless Treasures: Archival Materials of Macao’s Firecracker Industry”, uma mostra documental composta por jornais, fotografias, mapas, facturas, telegramas e outros materiais que ajudam a reconstruir a história da indústria e a sua importância para o desenvolvimento económico e social de Macau.

Para a diretora da biblioteca da MUST, Long Xiao, “não se trata apenas de preservar materiais, mas de os estudar, contextualizar e torná-los acessíveis às futuras gerações”.

Tags:

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website