Completo nesta edição o elogio ao Festival Literário; sem pruridos nem constrangimentos. A opinião deve ser lúcida, sustentada, honesta… e contraditável; não tem de ser pura, nem anódina. Foi o melhor de sempre; e não o digo por espanto – que não há; ou sedução – que há. É porque sinto na pele o luxo da cascata cultural; da partilha de ideias; do prazer de pensar e debater… Mais que a soma de artes e nomes, o Rota das Letras mexe é com a cabeça; e diz-nos que há disso em Macau. Não é uma festa gira; é a vida a acontecer; com voz e neurónios. Chapeau Ricardo!
Estreio nesta edição (Págs. 10-13) um estilo que me apetece; não consigo não me render. Não sou crítico literário, muito menos teatral; não tenho esse engenho. Mas o livro de Miguel Carvalho – “Por Dentro do Chega” – e o monólogo de Margarida Vila-Nova – “À Primeira Vista”, não podem passar em claro. São dois hinos ao estilo, talento e competência. Estar com eles, eles quererem cá estar, faz parte do que queremos ser – da cidade que queremos ter.
Dito isto, passo ao tema aqui central: diz Amitav Ghosh, na entrevista que publicamos na semana passada: “Se quisermos todos viver o sonho americano, precisamos de cinco planetas”. Já não consigo pensar sem o desafio que isto nos coloca: absoluto e definitivo.
Quem acredita – como eu – que o progresso, direitos e liberdades, consumo, ambição, até o desperdício… são direitos teoricamente universais, seja qual for o género, raça, cultura ou ideologia, vai colonizar cinco planetas para sustentar isso tudo para 8 mil milhões de pessoas. Ou então baixa drasticamente as expectativas; produz menos, consome menos… pousa o espírito noutra lógica.
Na realidade, a via que toma conta de nós não é uma nem outra; é a lei do mais forte: se é para destruir o Planeta então vou eu aos comandos; ao menos morro mais barrigudo e mais tarde que tu. Aliás, pelo caminho construo uns bunkers na terra e uns quartéis militares no espaço. Brilhante…
Como Ghosh nos diz, as crises são tantas, de tão largo espectro, que já nem lhe apetece focar-se no caos ambiental: morte da biodiversidade; morte pela guerra; morte dos valores; morte da expectativa… tanta coisa por resolver que perdemos a consciência; a da própria sobrevivência.
Comunistas, socialistas, democratas e liberais, fascistas… vendem todos o mesmo peixe: comigo produz-se mais, exporta-se mais, distribui-se melhor, há mais emprego, dinheiro, consumo… Há exceções a isto? Claro; aos milhões. Mas o abismo que comanda a vida é mesmo esta vida que rende. Não há o mesmo para todos – nunca houve. Mas há esta ilusão de que todos e cada um de nós pode ter um bocadinho mais do que tem. E é mentira – não pode. Trágica contradição.
Pensa quem pode: era só o que faltava teres tanto ou mais que eu. Logo, trato do que é meu, mesmo que aches que é teu. Porque quero, posso e mando – é esse o meu direito – faz parte da minha segurança nacional – e pessoal: tomo conta do petróleo, do gás, da tecnologia, da água, dos adubos e pesticidas, da Inteligência Artificial, do que mais for preciso e houver. O povo – o meu – só tem de agradecer; ou querem ser pobres e deixar o inimigo ser rico? Esse herege!
Já não sei dar nome a isto; nem que teoria usar no combate. Sei que não vejo nenhuma ideologia a dar resposta a isto; e sei que não se pode falar nisto sem falar disso. Porque estou nesta energia? Porque me infeta esse vírus, a mania de ouvir. Passei os dias a ler, a ver, pensar e discutir, dar e receber… é a cultura, estúpido; é o Festival, amigo. Repito: o Rota das Letras não é uma coleção de autores e autógrafos; tem mesmo a arte de mexer com a gente. Discordem lá – ou não. Sintam-se vivos.