Há cidades que moldam pessoas e pessoas que moldam cidades. José Maneiras, arquitecto e figura incontornável de Macau, foi uma dessas pessoas. Partiu em novembro passado e celebraria 91 anos estes mês.
Filho da terra, dela se ausentou para estudar mas regressou logo após concluir a licenciatura, decidido a colocar o seu talento ao serviço da comunidade. A sua marca está gravada na paisagem urbana e política da cidade.
Como arquiteto, destacou-se pela sensibilidade social e ambiental: o programa residencial para invisuais na Areia Preta é exemplo da sua preocupação com os mais vulneráveis; a adaptação dos princípios modernistas às especificidades locais revela a sua visão inovadora e respeito pelo contexto.
Mas José Maneiras não se limitou à arquitetura. Antes do 25 de Abril, integrou o Conselho Legislativo, órgão precursor da actual Assembleia Legislativa, e foi o primeiro a recitar Manuel Alegre naquele espaço, quando os ventos da liberdade começavam a soprar.
Em 1974, fundou o Centro Democrático de Macau e, entre 1989 e 1993, presidiu ao Leal Senado, desempenhando um papel decisivo na vida da cidade.
Apesar de uma carreira marcada por feitos notáveis, manteve sempre uma postura discreta. Não buscava honrarias nem protagonismo; preferia estar próximo das pessoas, amigo do seu amigo, com um sentido de humor que tornava cada encontro memorável. Mesmo com a idade avançada, continuava a participar em diversas atividades, fazendo questão de dar o seu contributo sobre qualquer tema de que se falasse.
José Maneiras deixa-nos um legado de obras, ideias e valores. Mais do que edifícios ou cargos, deixa-nos o exemplo de uma vida dedicada à comunidade, vivida com integridade e humanidade.
Macau despediu-se de um dos seus grandes arquitetos e cidadãos, mas não o esquece. A sua memória continuará a moldar a cidade que tanto amou e esta, por sua vez, a moldar os que nela habitam.