No dia 17 de maio, Cabo Verde vai a votos. O povo decide. O país é conhecido pela alternância política, sempre pacífica e exemplar – um ativo democrático que o mundo reconhece.
As sondagens valem o que valem. É compreensível, porém, que após dois mandatos exista algum desgaste natural. A oposição manifesta um forte desejo de mudança. A situação procura sustentar um discurso de continuidade, tarefa que se adivinha difícil.
Concorrem 5 partidos. Os dois grandes do arco do poder – PAICV e MPD – certamente um deles formará o próximo governo. Os outros três, de menor expressão (UCID, PTS e PP), vão eleger alguns deputados, mas sem influência decisória na governação.
A pergunta que me interessa é outra: o que significará o resultado das urnas para as relações com a China?
Na minha análise, a relação entre Cabo Verde e a China, ao longo destes 50 anos, pode ser dividida em quatro grandes momentos distintos. Os primeiros 15 anos, da independência em 1975 até 1990 com o PAICV no poder, foram de cooperação intensa, com apoios significativos em infraestruturas, desenvolvimento, saúde, formação de quadros e combate à pobreza.
Seguiram-se 10 anos, de 1990 a 2000, já com as mudanças de regime e do partido no poder, MPD, marcados pela abertura política e multipartidarismo, com menos investimentos e uma dinâmica mais contida.
Depois, e durante mais 15 anos, com o regresso do PAICV ao poder em 2001 até 2016, verificou-se uma retoma encorajadora: novos investimentos em infraestruturas, reforço da aposta na formação de quadros, e renovada cooperação em várias áreas. Por fim os últimos 10 anos, com o MPD no governo, observou-se uma certa desaceleração, um ritmo mais lento diria.
O que se espera, e no fundo se deseja mesmo, é uma nova dinâmica, por parte do novo governo que sair a 17 de maio. Se se mantiver o mesmo, pode-se esperar certamente a continuidade do ritmo e políticas conhecidas. Se houver mudança, que o novo poderá traga maior dinâmica e revitalização da cooperação para o desenvolvimento, além de um eventual alinhamento em algumas grandes questões globais.
Que esta escolha não seja apenas de alternância, mas de ambição. Que o próximo governo, seja qual for, compreenda que os tempos globais exigem parcerias vivas, dinâmicas e inteligentes. No caso da China, uma cooperação tão importante para Cabo Verde, um ativo de mais meio século – merece um novo fôlego, maior proximidade e perspetivas renovadas.