Referi antes que Macau tem cartas por jogar, como a “Plataforma Sino-Portuguesa”. Muitos veem-na como uma mera missão política ou diplomática, sem a levar a sério. Mas o Mundial da semana passada deu-nos uma lição.
A 15 de junho, Cabo Verde estreou-se no Mundial contra a Espanha, campeã europeia. Ninguém apostava num país africano com 530 mil habitantes e 4000 km². O resultado? 0-0. Cabo Verde resistiu.
O guarda-redes Vozinha, de 40 anos, brilhou ao defender 27 remates. Profissionalizou-se tarde, aos 25 anos, e joga hoje na 2.ª Liga portuguesa. A alcunha “Vozinha” surgiu na infância, quando o gozavam por ir chorar à avó após as derrotas.
Após o jogo, os seus seguidores no Instagram saltaram de 50 mil para 10 milhões em 24 horas, superando hoje os 17 milhões – mais do que muitas estrelas da NBA.
O que mais destaco é outro detalhe: o Estádio Nacional de Cabo Verde foi construído pela China. Concluído em 2014 com 15.000 lugares, mantém até hoje 11 técnicos chineses para manutenção e formação.
O diretor do estádio afirmou: “O desenvolvimento desportivo em Cabo Verde pode ser dividido em duas fases: antes e depois do Estádio Nacional”.
Eis o poder das infraestruturas. Não é um evento pontual, mas uma base contínua. A equipa treinou lá e, dez anos depois, chegou ao Mundial.
Cabo Verde é membro do Fórum Macau. Enquanto duvidamos da Plataforma, a China constrói estádios e estradas lá. É um investimento a longo prazo, não um mero espetáculo diplomático.
Macau já tem o hardware – o Complexo da Plataforma e reuniões regulares. Mas depois, todos partem. Será que os negócios, a arbitragem e a formação funcionam de forma contínua como aquele estádio?
A lição é: não subestimem esta carta. Uma semente floresce numa década. A questão é se estamos a semear a sério.