No artigo anterior, falei sobre os “dois Macau” – um deslumbrante nos rankings, outro que se sustenta silenciosamente nas esquinas. Neste, quero tentar responder: por que é assim?
Começo com uma observação.
Nos últimos anos, Macau organizou muitos eventos. Concertos, festivais de fogo de artifício, de gastronomia e de luz, transmissões ao vivo de influenciadores, feiras – cada evento foi preparado com dedicação e trouxe multidões. Nas redes sociais, a etiqueta “Macau muito próspero” surge por todo o lado; esta prosperidade é real e fruto do esforço de muitos.
Mas penso frequentemente: e depois de terminarem os eventos? A história do ZAPE ilustra bem o problema. Com o encerramento dos casinos-satélite, o fluxo de pessoas caiu drasticamente. O Governo respondeu rapidamente: lançou feiras, decorações de Natal e convidou influenciadores. A dedicação é visível. Mas quando a feira termina e os influenciadores partem, o problema fundamental persiste: qual é a atratividade a longo prazo do ZAPE?
Chamo a esta prosperidade, baseada em megaeventos, atividades e investimentos a curto prazo, “vitalidade de eventos”. É real, mas tem uma característica: um raio de radiação muito estreito e curta duração. Se o concerto é no Cotai, o fluxo fica no Cotai; se a feira é no ZAPE, o fluxo fica no ZAPE. Acabado o evento, o fluxo dispersa-se.
Mais crucial ainda, é difícil que esta vitalidade penetre nos vasos capilares da cidade. As lojas antigas da Rua de Cinco de Outubro, os pequenos espaços da Praia do Manduco e as bancas do Mercado de S. Domingos não sentem a prosperidade dos concertos do Cotai. O dinheiro circula dentro dos muros das operadoras de Jogo e não flui para fora. Em contrapartida, existe outra vitalidade, que chamo de “vitalidade institucional”.
Esta não depende de um evento único, mas da segurança, previsibilidade e conectividade criadas pelo desenho institucional. Não atrai turistas de uma só vez, mas capital, talentos e instituições dispostos a fixar-se a longo prazo. O seu alcance é amplo, dura muito e penetra em todos os cantos da cidade.
Concretizando: com vitalidade institucional, as PME não precisam de uma feira para serem vistas, pois existe uma infraestrutura de informação que permite encontrá-las a qualquer momento; os investidores não precisam de conhecer um funcionário para se estabelecerem, pois há leis e procedimentos claros a seguir; os talentos não dependem de um projeto para ter oportunidades, pois há plataformas contínuas para se destacarem.
Por exemplo: a vitalidade de eventos é como lançar fogo de artifício, brilhante, mas efémera; a vitalidade institucional é como plantar uma árvore, lenta, mas enraizada. O fogo de artifício precisa de ser lançado continuamente; a árvore, uma vez plantada, cresce sozinha. “A vitalidade de eventos cria espetáculos; a institucional, cria ecossistemas. A primeira depende do tráfego, a segunda da estrutura.” Macau não carece de capacidade. O problema é: somos demasiado bons a criar a primeira, mas ainda não investimos seriamente na segunda. Porquê?