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De Berlim com arte e amor

A distância entre Berlim e Macau mede-se menos em quilómetros do que em experiências partilhadas. Cheong Kin Man, antropólogo, nasce em Macau; Marta Stanisława Sala na Polónia. Mas é na Alemanha vivem dois amores: o pessoal, que os une, e um território artístico comum. Não só geográfico, sobretudo conceptual

Paulo Rego

“De certa forma, somos filhos do pós-guerra fria”, comenta Cheong. Consciência geracional molda a prática artística: as diferenças deixam de ser obstáculo e passam a ser matéria.

A ligação entre as duas cidades parece improvável, mas há paralelismos: “Macau mudou drasticamente, tal como a Alemanha”, aponta Cheong, mencionando transformações profundas em ambos os contextos. Mais do que uma coincidência histórica, movimento que traduz sensibilidade e partilha: viver num tempo politicamente tenso, onde as narrativas globais se tornam cada vez mais polarizadas.

Em Berlim, “os movimentos artísticos pós-coloniais têm sido muito fortes”, continua Cheong: “Toda a gente é minoria”, a cidade oferece um ambiente onde a identidade, não sendo fixa, é negociada. Na leitura que ambos fazem, essa sensação é mais importante do que qualquer definição objetiva: “Não se trata da realidade, mas do sentimento”.

A prática artística que desenvolvem nasce precisamente desse cruzamento; não se limita a um meio, “é multidisciplinar: investigação antropológica, têxtil, filme experimental, livros”, descreve Cheong. O mais relevante é o modo como trabalham: contato direto com comunidades, recolhendo estórias e materiais normalmente marginais às das narrativas dominantes.

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Os têxteis são centrais nesse processo. Marta explica: “Seleciono restos de materiais, que normalmente seriam deitados fora”. A partir desses fragmentos constroem corpos, objetos e instalações que funcionam como colagens de memórias. A narrativa “quebra as regras da narrativa linear”, dando espaço ao que normalmente é descartado – tanto material como simbolicamente.

A sustentabilidade surge como consequência, não como discurso. “Não diria que somos heróis do zero waste”, sublinha Marta. A preocupação existe, mas recusam simplificações: “O problema é muito mais complexo”. O foco está antes nas histórias que esses materiais carregam e na forma como criam novas ligações.

A ideia de ligação atravessa todo o processo do casal, molda a abordagem.

Instalação têxtil e de fresco “A Imagem é um Elefante” (2026), no museu Cricoteka, na Polónia. Fotografia de M. Zygmunt / Cricoteka – Museu Tadeusza Kantor

Arte sem confronto

Num contexto global marcado por tensões – “nova Guerra Fria entre diferentes mundos”, como lhe chama Marta, a resposta que propõem é deliberadamente simples: “Não é preciso ter problemas com os governos”, diz Cheong; o que importa é o contato direto entre pessoas. A arte surge como espaço intermédio, onde se cria empatia sem confronto imediato.

Marta reforça a dimensão quotidiana: “Quando se começa por outra coisa, é possível criar uma atmosfera mais humana”. Antes da política, vem a relação; antes do debate, o encontro.

Preparam-se para trazer essa lógica a Macau, entre Junho/Julho. “A minha expectativa é juntar grupos de pessoas que normalmente não estão juntas”, explica Cheong, referindo-se à diversidade linguística e cultural da cidade. O objetivo central passa por criar experiências onde essas diferenças coexistam “de forma ativa, não apenas simbólica”.

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Para Marta, a própria cidade sugere a possibilidade. “Quando se veem letras latinas e ideogramas chineses, é mais fácil sentir uma ligação”. A convivência visual de códigos distintos transforma-se na metáfora do que procuram construir.

O projeto que apresentam nessa linha inclui uma instalação com “esculturas com forma humana – patchwork”, feitas a partir de têxteis recolhidos em diferentes contextos. Mas estão sempre centrados no público, na interação e na performance. “É muito mais importante”, diz Marta. Mais que mostrar, querem envolver.

Entre blocos políticos, discursos de poder e identidades rígidas, preferem o espaço mais pequeno; quiçá mais eficaz para narrativas alternativas. “De certa forma, estamos naturalmente ligados”, concordam ambos.

Num tempo de fragmentação, a aposta é quase contraintuitiva: acreditar, ligar pessoas… nem que seja através de um pedaço de tecido e de uma história partilhada.

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