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Arte e cultura para proteger os mercados de Macau

O Mercado Vermelho está a transformar-se num laboratório criativo que cruza arte, comunidade e economia local, numa altura em que se procura redefinir o papel destes espaços na cidade. “O mercado não é apenas um local de compras, mas também ‘desempenha uma função social’”, afirma Pal Lok, responsável pelo projecto Red Market Art & Cultural Fest

Carol Law

Desde o lançamento do festival, em maio de 2025, o coletivo artístico My Land tem apostado em exposições, workshops e publicações para aproximar o público da cultura dos mercados municipais. A iniciativa procura contrariar a perda de relevância destes espaços num contexto dominado por supermercados e compras online, propondo novas formas de uso e de interação com o espaço público.

Em março, representantes da Rede de Cidades Criativas da UNESCO visitaram o Mercado Vermelho, participando num workshop que combinou gastronomia e artes visuais.

Já no final da Primavera, o artista de Hong Kong Pak Sheung Chuen regressa a Macau para uma residência artística centrada no mercado, explorando a ideia de que o próprio espaço pode ser entendido como obra contemporânea. Entre os projetos desenvolvidos, destaca-se o zine “I got a pocket, a pocketful of Red Market”, da ilustradora Yang Sio Maan, selecionado para a Exposição de Ilustradores de Bolonha.

Atualmente, existem algumas bancas vagas no Mercado Vermelho. Pal Lok e a sua equipa utilizaram duas delas como espaço para exposições e atividades

Ao PLATAFORMA, Pal Lok explica que a ideia nasceu de uma ligação pessoal aos mercados e da constatação da quebra de afluência. “No início não sabíamos bem como começar”, recorda, admitindo também a resistência inicial da comunidade, com alguns moradores a considerarem que “a arte e a cultura não servem para nada” ou questionarem “como é que isso vai impulsionar os negócios”.

Para ultrapassar esse distanciamento, a equipa apostou em pequenos workshops e atividades de proximidade, envolvendo moradores, comerciantes e visitantes. Hoje, defende, o mercado continua a ter um papel relevante: “Os moradores e os donos das bancas que frequentam conhecem-se e vêm ao mercado para conversar.” A ideia passa por afirmar o espaço como uma espécie de “sala de estar” urbana, onde a convivência complementa a função comercial e reforça a identidade local.

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O festival assenta em três objetivos: dinamizar o consumo através da atração de público, preservar memórias e saberes locais e clarificar o papel dos mercados na comunidade. “Queremos iniciar esta discussão sobre o que é mais adequado para este espaço”, afirma Pal Lok, sublinhando que qualquer processo de revitalização exige equilíbrio entre comerciantes, residentes, Governo e setor do turismo.

Nesse sentido, o projeto tem vindo também a recolher informação sobre o funcionamento e a vivência dos mercados. Através de um “Programa de Observadores”, jovens de diferentes áreas académicas foram convidados a acompanhar o dia-a-dia do Mercado Vermelho, contribuindo para a produção de dados e reflexões que possam apoiar futuras decisões sobre estes espaços.

O “Red Market Art & Cultural Fest” também implementou um programa de residência artística, convidando diferentes artistas a criarem obras com o tema do mercado

Uma nova centralidade

Essa reflexão é também partilhada por Lei Chong In, membro do Conselho Consultivo para os Assuntos Municipais. Para o responsável, a questão central da revitalização passa por definir “para quem se muda”. Na sua leitura, os mercados devem evoluir de “simples espaços de comércio para pontos de convergência entre vida comunitária, criatividade cultural e experiência turística”, explica ao PLATAFORMA.

Lei Chong In considera que os mercados em zonas turísticas devem apostar na “complementaridade com o tecido envolvente”, enquanto os mercados em áreas residenciais devem reforçar a “experiência de compra e a coesão comunitária”, face à concorrência de supermercados, lojas de rua e ao consumo no Interior da China.

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O responsável defende ainda uma abordagem estratégica, com planeamento diferenciado e revisão dos modelos de gestão, incluindo mecanismos mais flexíveis de entrada e saída de operadores. Sublinha que “o sucesso da revitalização dos mercados não depende apenas da inovação do espaço interno”, mas da capacidade de integração na vida urbana e da construção de uma imagem pública positiva.

Revitalização dos mercados a todo o vapor

De acordo com uma interpelação da deputada Lei Cheng I, em dezembro de 2025, existiam 329 bancas vagas nos 8 mercados públicos de Macau, representando cerca de 30.95% do total, concentrando-se principalmente no Mercado de Iao Hon, Mercado de S. Lourenço e Mercado de S. Domingos. Além disso, havia 100 bancas vagas nas zonas de vendilhões, representando cerca de 17.3% do total, distribuídas principalmente pela periferia do Mercado de S. Domingos e pelas zonas de vendilhões do Fai Chi Kei e da Rua de Fernão Mendes Pinto.

Depois do Mercado do Patane, Mercado de S. Horta da Mitra e Mercado Vermelho, a zona de gastronomia e indústrias culturais e criativas do Mercado da Taipa abriu oficialmente em dezembro de 2025.

Em janeiro deste ano, o Instituto para os Assuntos Municipais (IAM) revelou que, após a revitalização, o mercado atraiu mais de 200 mil pessoas para visitas e consumo, com uma média diária de cerca de 7.000 visitantes, um aumento de mais de 4 vezes em relação ao período anterior à revitalização.

Em fevereiro deste ano, o IAM lançou o “Plano de Revitalização do Espaço do Antigo Mercado Municipal de Coloane” e, em março, revelou que a revitalização do Mercado de Toi San incluirá uma praça de alimentação.  O IAM realizou três sessões de esclarecimento sobre o concurso público no Centro de Actividades do Patane, entre 13 e 15 de abril.

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