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Sam Hou Fai leva agenda económica a Portugal e Europa

A visita do Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, a Portugal, acompanhado por uma comitiva empresarial, é vista como uma oportunidade para reforçar a dimensão económica da relação bilateral e passar de “uma lógica mais institucional e protocolar para resultados operacionais”, afirma Carmen Amado Mendes, presidente do Centro Científico e Cultural de Macau (Lisboa). Ainda assim, Artur Ângelo, da Associação Macaenses e Portugueses de Macau em Portugal, espera que “não se limite ao plano económico”, já que há “espaço para reforçar a educação, a cultura e a mobilidade jovem”

Gonçalo Francisco, Fernando M. Ferreira

Sam Hou Fai, chega a Lisboa a 18 de abril, no arranque de uma visita oficial a Portugal e Espanha – com paragens em Genebra e Bruxelas – com uma comitiva de cerca de 120 empresários e mais de 20 empresas da Grande Baía e de outras províncias da China.

Numa entrevista ao Canal Macau e à Rádio Macau, o líder da RAEM destacou que, além dos encontros políticos, a deslocação dará especial destaque às vertentes económica e comercial, naquela que é a sua primeira visita ao estrangeiro desde que tomou posse.

“Serão assinados mais de 39 protocolos de cooperação com entidades ou empresas de Portugal, abrangendo diversos domínios como o comércio e a economia, a plataforma sino-portuguesa, a educação, a cultura, o turismo, a formação de quadros qualificados, a Big Health e a tecnologia de ponta”, afirmou na entrevista.

Para a Fundação Casa de Macau, o destaque está na dimensão económica, mas com cautela. Daniel Pedro, dirigente da associação, considera que a presença de empresários “mostra vontade de aprofundar relações económicas concretas, indo além da diplomacia simbólica”, sublinhando, no entanto, que o impacto dependerá da criação de “mecanismos reais de apoio ao investimento e de acompanhamento dos acordos”.

Se houver continuidade, esta pode ser uma oportunidade real para relançar a relação luso-macaense – Daniel Pedro, dirigente da Fundação Casa de Macau em Portugal

A associação recorda ainda que Macau continua a ser uma plataforma estratégica subaproveitada. “Macau mantém-se como uma porta de entrada privilegiada para o mercado da Grande Baía e para a China continental. Portugal pode beneficiar disso, mas só com estratégia consistente das duas partes”, diz ao PLATAFORMA.

Também a Associação Macaenses e Portugueses de Macau em Portugal sublinha a importância simbólica da visita. Artur Ângelo considera que representa “o reconhecimento de uma história comum e de uma ligação humana que vai além da política e da economia”, defendendo que a cooperação deve ir além dos protocolos. “Esperamos que esta visita não se limite ao plano económico. Há espaço para reforçar a educação, a cultura e a mobilidade jovem”, afirma o dirigente associativo.

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Para Carmen Amado Mendes, presidente do Centro Científico e Cultural de Macau (Lisboa), o papel da região continua a ser singular. “Macau continua a ter um posicionamento muito particular e muito relevante na relação entre a China e Portugal. Tem uma vantagem que mais nenhuma região tem: combina a herança histórica portuguesa com a inserção plena na China contemporânea”, afirma ao PLATAFORMA.

Macau como espaço de mediação

Essa posição permite a Macau funcionar como espaço de mediação e confiança. “Macau funciona como um espaço intermédio de tradução e de confiança: tradução linguística, jurídica, institucional e até cultural”, explica, sublinhando, no entanto, que não substitui os canais diretos entre Estados.

A responsável defende que o principal desafio passa por tornar essa função mais concreta. “A prioridade para os decisores chineses deveria ser tornar Macau uma verdadeira plataforma operacional, com resultados mais visíveis e mais regulares (e não apenas retórica…)”, afirma, apontando a necessidade de maior coordenação institucional e articulação com Hengqin para ganhar escala.

Na sua perspetiva, Macau pode ganhar relevância se reforçar áreas específicas onde já tem vantagens comparativas. Destaca, em particular, o potencial nos serviços financeiros ligados à China e ao espaço lusófono, na inovação, na cooperação científica e tecnológica e no apoio a pequenas e médias empresas, incluindo start-ups.

A prioridade para os decisores chineses deveria ser tornar Macau uma verdadeira plataforma operacional, com resultados mais visíveis e mais regulares (e não apenas retórica…) – Carmen Mendes, presidente do Centro Científico e Cultural de Macau (Lisboa)

Sobre a visita, Carmen Mendes admite que o momento pode representar uma mudança de abordagem. “A minha expectativa é que esta deslocação sirva para passar de uma lógica mais institucional e protocolar para resultados operacionais, com projetos, contatos empresariais e mecanismos de seguimento mais concretos que beneficiem a todos”, afirma.

Também considera essencial que Macau se afirme “menos como símbolo e mais como instrumento prático de cooperação”, defendendo, por isso, que deve afirmar-se “menos como palco e mais como plataforma de serviços”. Assim, o maior desafio não está em justificar a sua relevância histórica, mas em “transformar essa singularidade histórica em capacidade operacional regular, útil para todos os países da CPLP e não apenas para alguns”.

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Além da vertente económica, destaca ainda áreas onde Macau pode reforçar a cooperação com Portugal, nomeadamente “o ensino superior, a formação bilingue, a ciência, a cultura, a tradução jurídica e a circulação de quadros”.

“Espero que a vinda de Sam Hou Fai ajude a consolidar confiança, a dar visibilidade a Macau em Portugal, mas, acima de tudo, que tenha um valor político claro”, sublinha Carmen Mendes.

No plano institucional, o Centro Científico e Cultural de Macau surge como um dos instrumentos dessa ligação. “O Centro Científico e Cultural de Macau é o espelho deste estreito relacionamento e dos laços de amizade que fomos construindo”, afirma, destacando o papel da instituição na investigação, formação e promoção cultural.

Assim, a visita representa sobretudo uma oportunidade para relançar a relação Macau-Portugal, num momento em que se procura dar maior densidade económica e estratégica a um vínculo historicamente consolidado. “Se houver continuidade, esta pode ser uma oportunidade real para relançar a relação luso-macaense”, sintetiza Daniel Pedro.

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