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Fundão quer abrir portas na China

O presidente da Câmara do Fundão, Luís Gavinhos, defende o reforço da ligação a Macau como plataforma para chegar ao mercado chinês, numa estratégia que cruza turismo, exportações e captação de investimento. “Houve uma explosão de procura no concelho do Fundão”, afirma, destacando a afirmação da cidade como marca-destino

Fernando M. Ferreira

– O que traz concretamente o Fundão a Macau nesta participação na reunião da UCCLA? Que objetivos pretende ver concretizados?

Luís M. Gavinhos – O município do Fundão acredita muito nas redes de cooperação. Estamos inseridos em mais de 50 redes de cooperação entre diferentes cidades, naturalmente a maior parte dentro do contexto europeu. Temos também uma germinação no continente africano com a cidade do Tarrafal, em Cabo Verde. Mas temos também uma ligação histórica com Macau. Acreditamos muito nesta relação, que tem um chão comum na língua portuguesa, e achamos que pode nascer, através desta rede de cidades, muito daquilo que possa ser a aprendizagem com municípios diferentes. Acho que aquilo a que assistimos aqui em Macau é, no mínimo, inspirador para aquilo que devem ser os objetivos de desenvolvimento de cada uma dessas cidades. Nós, há sensivelmente uma década e meia, fizemos uma grande ação de promoção dos produtos do Fundão, em particular da cereja do Fundão, e estamos disponíveis para voltar a fazê-lo. Estamos disponíveis para, através também da língua e deste canal histórico, estabelecermos a ligação com os nossos empresários. Ficamos satisfeitos com a mostra dos produtos que estão aqui e com o facto de alguns dos produtos expostos hoje na plataforma de comércio de Macau serem produtos do Fundão. Por isso, queremos fomentar essa ligação. Achamos que este modelo é adequado: associar sempre a diplomacia económica a estes eventos institucionais, mas assumir claramente que a parte da economia, aquilo que possa chegar ao mercado, seja também explorado nestes encontros. Tive ocasião, no decurso da Assembleia Geral, de propor que o município do Fundão, em parceria com o seu município vizinho da Covilhã, pudesse acolher uma Assembleia Geral da UCCLA.

– Em 2024, a estadia de turistas no Fundão cresceu mais de 30% em comparação com o período pré-pandémico. Que estratégia está definida para consolidar este crescimento e que papel pode o mercado chinês desempenhar?

L.M.G. – Macau é um excelente exemplo da forma como faz a promoção turística. Estamos a falar de uma região com menos de 800 mil habitantes e que tem 47 milhões de turistas por ano. Portugal tem cerca de 11 milhões de habitantes e 30 milhões de visitantes. No Fundão, afirmámo-nos com uma marca nacional, através da promoção da cereja, que fizemos junto de grandes eventos nacionais. Temos programas turísticos muito relevantes ligados à cereja, seja na cerejeira em flor, seja no fruto, para além do grande evento da Festa da Cereja. Temos comboios turísticos, passeios de balão de ar quente, passeios de bicicleta, mas desenvolvemos também um cartaz cultural e turístico que abrange o ano inteiro. Falo de um grande festival gastronómico ligado aos cogumelos, o Míscaros, e dos Chocalhos, que mobiliza toda a vila de Alpedrinha e que tem, habitualmente, cerca de 50 mil visitantes nesse fim de semana. O que sentimos é que o crescimento tem sido exponencial. Hoje estamos acima das 190 mil dormidas. Ou seja, houve uma explosão de procura no concelho do Fundão, que se deve naturalmente a uma programação e à afirmação de uma marca-destino, como é o Fundão hoje em dia, mas também à evolução que houve da parte do setor privado, que cresceu muito naquilo que é a oferta de novos serviços.

Macau é um excelente exemplo da forma como faz a promoção turística

– Que vantagens competitivas oferece o Fundão a investidores estrangeiros, nomeadamente face a outras regiões de Portugal?

L.M.G. – Nós temos afirmado o setor tecnológico nos últimos anos, afirmado também o setor da metalomecânica de precisão, a produção de pequenas peças para mercados muito crescentes e muito procurados, como a relojoaria. Temos também, na área da confeção, trabalho para grandes marcas mundiais. Mas diria que, nos últimos anos, a atração tem estado mais focada no setor agroalimentar e também no setor das novas tecnologias. Fizemos uma promoção nacional para atrair essas empresas, muito ligada à dificuldade de recrutamento que as empresas tecnológicas têm para se desenvolverem nos grandes centros urbanos. Esse custo de vida, que é um fator de barreira para esse recrutamento, é uma vantagem competitiva para um município como o Fundão, que não é um centro urbano. Estamos a falar de um concelho com 27 mil habitantes, que se posicionou exatamente junto das empresas, colocando a proximidade da casa com o local de trabalho, financiando e subvencionando também esse mercado de arrendamento para garantir essa polarização dos técnicos. Isso permitiu-nos ser diferenciadores.

– Que tipo de investimento pretende atrair junto de empresários chineses, nomeadamente da Grande Baía e de Macau, e que setores considera prioritários?

L.M.G. – Relativamente ao mercado chinês, nós continuamos a aprofundar essa relação económica. Na parte do setor agroalimentar, construímos um catálogo de produtos totalmente traduzido para mandarim. Alguns desses produtos já tivemos ocasião de os ver aqui, o que significa que esse caminho está a ser desenvolvido. Mas diria também que, na área tecnológica, hoje temos cada vez mais trabalhadores e colaboradores das empresas que são de origem asiática. Portanto, fomentar estes dois canais, que são dois canais que seguramente devem ser trabalhados no futuro.

Ficamos satisfeitos com a mostra dos produtos que estão aqui e com o facto de alguns dos produtos expostos hoje na plataforma de comércio de Macau serem produtos do Fundão

O Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, e a delegação da XLIII Assembleia-Geral da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), na Sede do Governo

– A cereja do Fundão é um dos principais símbolos da região. Vê potencial para desenvolver parcerias com o mercado chinês, seja na exportação, transformação ou valorização deste produto?

L.M.G. – Nós achamos que o mercado chinês é um mercado que aprecia muito a cereja. Nós não podemos, nem admitimos, que a cereja possa ser escoada diariamente para a China. Nesse inventário que fizemos, e que está totalmente traduzido para mandarim, temos um conjunto de produtos com capacidade de exportação, nomeadamente azeite, alguns enchidos e outros produtos do setor agroalimentar que têm naturalmente tração. Já vimos alguns dos produtos portugueses de maior relevância a serem comercializados aqui em Macau. Na parte da cereja, temos gin, licor de cereja, chás e mais de 40 produtos diversificados ligados à cereja, com capacidade de viver fora do período sazonal. Para garantirmos essa transação, a cereja tem de ser já em produto transformado. Desenvolvemos também uma plataforma digital de comercialização desses produtos, onde é possível fazer essa aquisição e a expedição. Queremos também promover a própria plataforma, porque ela é, em si mesma, um canal de veiculação de todos esses produtos.

– De que forma Macau pode funcionar como plataforma de ligação entre o Fundão e o mercado chinês, nas suas várias vertentes?

L.M.G. – Como se sabe, a dimensão da China coloca muitas vezes dificuldades a países como o nosso. Para colocarmos um produto numa rede de hotéis, se calhar a produção toda nacional não é suficiente. Portanto, estamos a falar de escalas completamente diferentes. Tentaremos, na medida do possível, atacar nichos, fazer esta relação mais direta com regiões como a de Macau, que permitam fazer a transação direta, porque à escala nacional não teríamos qualquer tipo de capacidade de competitividade. Mas creio que a abertura que é dada também – fomos recebidos, de resto, pelo Chefe do Executivo – demonstra disponibilidade para fomentar esse tipo de relacionamento, para além da diplomacia, mas também naquilo que possa ser a conjugação de interesses económicos.

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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