O Presidente das Filipinas, Ferdinand Marcos Jr., declarou que as relações entre Manila e Tóquio entraram numa “era de platina”, após uma visita de Estado de quatro dias ao Japão que culminou com um acordo para elevar os laços bilaterais ao nível de Parceria Estratégica Abrangente. A informação foi avançada pela agência noticiosa japonesa NHK.
Visita de Estado assinala nova etapa diplomática
Marcos tornou-se o primeiro Presidente filipino em mais de uma década a realizar uma visita de Estado ao Japão, coincidindo com o 70.º aniversário da normalização das relações diplomáticas entre os dois países.
O Chefe de Estado filipino e a primeira-dama, Liza Marcos, foram recebidos pelo imperador Naruhito e pela imperatriz Masako no Palácio Imperial de Tóquio. A cerimónia contou ainda com a presença do príncipe herdeiro Akishino, da princesa Kiko e da primeira-ministra japonesa, Takaichi Sanae.
Durante a visita, foram interpretados os hinos nacionais dos dois países e Marcos recebeu honras militares da Guarda de Honra das Forças de Autodefesa do Japão. O imperador e a imperatriz ofereceram ainda um banquete oficial em honra do casal presidencial filipino, refere a NHK.
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Defesa no centro da aproximação
O principal resultado político da visita surgiu durante a cimeira entre Takaichi e Marcos, realizada em Tóquio. De acordo com a NHK, os dois líderes acordaram elevar formalmente as relações bilaterais e aprofundar a cooperação em diversas áreas.
No comunicado conjunto divulgado após o encontro, Takaichi descreveu as Filipinas como um dos parceiros mais próximos do Japão entre os países que partilham valores e princípios semelhantes. Marcos afirmou que a nova parceria abre “novos horizontes” e reflete a profundidade das relações entre os dois Estados.
A segurança regional ocupou lugar de destaque nas conversações. Os dois governos decidiram iniciar negociações formais para um acordo de partilha de informação militar classificada (GSOMIA), que permitirá o intercâmbio imediato de dados sensíveis em matéria de defesa. Caso seja concluído, o Japão tornar-se-á apenas o segundo país, depois dos Estados Unidos, a possuir este tipo de acordo com as Filipinas, segundo a NHK.
Os líderes acordaram igualmente promover a transferência de equipamento militar, na sequência da decisão japonesa de permitir, em princípio, a exportação de armamento letal.
Preocupação com a China aproxima Tóquio e Manila
A NHK destaca que a crescente cooperação militar é impulsionada pelas preocupações comuns dos dois países relativamente às atividades marítimas chinesas no Mar da China Oriental e no Mar da China Meridional.
O comunicado conjunto refere que ambos os líderes manifestaram “séria preocupação” com a situação nestas áreas. As Filipinas mantêm há vários anos disputas territoriais com Pequim no Mar do Sul da China, onde navios chineses têm aumentado a pressão sobre embarcações filipinas.
A NHK recorda que as Forças de Autodefesa do Japão participaram recentemente num exercício militar conjunto com os Estados Unidos e as Filipinas, mobilizando cerca de 1.400 militares, numa participação sem precedentes.
A especialista em política e economia filipina, Suzuki Yurika, afirmou à NHK que Manila procura reforçar a sua capacidade de dissuasão no Mar do Sul da China com o apoio dos seus aliados, em particular do Japão, devido às limitações dos seus próprios meios militares.
A analista considera ainda que as Filipinas procuram fortalecer os laços com Tóquio numa altura em que existe a percepção de que Washington poderá dedicar menos atenção à Ásia sob a administração de Donald Trump.
Os dois governos acordaram também realizar em breve uma reunião ministerial “2+2” (cimeiras diplomáticas e estratégicas de alto nível entre dois países), envolvendo os ministros dos Negócios Estrangeiros e da Defesa.
Transferência de equipamento militar em estudo
Está atualmente em análise a possível transferência para as Filipinas de navios de escolta da classe Abukuma, atualmente ao serviço da Força Marítima de Autodefesa do Japão, segundo a NHK. Outra hipótese considerada passa pela cedência de mísseis antinavio pertencentes à Força Terrestre de Autodefesa.
Suzuki Yurika defendeu que a utilização de equipamento japonês pelas forças filipinas facilitará a interoperabilidade entre os dois países durante futuras operações conjuntas.
Também o porta-voz das Forças Armadas filipinas para o Mar das Filipinas Ocidental, Roy Vincent Trinidad, declarou à NHK que estas transferências poderão acelerar o processo de modernização militar do país.
Energia e economia entram na agenda
A segurança energética foi outro dos temas centrais da visita, num contexto marcado pela instabilidade no Médio Oriente. A NHK refere que as Filipinas dispõem de reservas de petróleo suficientes para apenas cerca de 45 dias e dependem em mais de 90% das importações provenientes daquela região.
Perante este cenário, Marcos chegou a declarar uma emergência energética nacional em março, devido aos receios relacionados com o abastecimento de combustíveis.
Durante a cimeira, Takaichi comprometeu-se a apoiar as Filipinas através da iniciativa POWERR Asia, um programa avaliado em 10 mil milhões de dólares destinado a reforçar cadeias de abastecimento energético e a desenvolver fontes alternativas de energia.
Os dois líderes concordaram ainda em avançar com discussões para rever o Acordo de Parceria Económica bilateral, com o objetivo de tornar mais resilientes as cadeias de abastecimento de minerais críticos, semicondutores e energias renováveis.
Diplomacia e política interna
A NHK sublinha que o reforço da cooperação com o Japão surge num momento politicamente delicado para Ferdinand Marcos Jr.
Nos últimos meses, o Governo filipino enfrentou críticas relacionadas com alegações de corrupção em projetos de controlo de cheias, provocando protestos em Manila e a demissão de dois ministros.
Marcos espera que o sucesso diplomático da visita ajude a aliviar parte do descontentamento popular, segundo Suzuki Yurika.
Do lado japonês, a especialista considera que apoiar as Filipinas é também uma questão geopolítica. Uma eventual deterioração económica do país poderá alimentar movimentos populistas ou favorecer o surgimento de um governo mais próximo de Pequim.
Para Tóquio, conclui a NHK, fortalecer as relações bilaterais e contribuir para a estabilidade económica e política das Filipinas tornou-se um objetivo estratégico cada vez mais relevante.