O estúdio de Alexandre Marreiros não é apenas uma sala onde se trabalha. É um lugar físico, mas também mental; uma oficina, mas também um espaço de espera, memória e observação. Em “O Estúdio de Alexandre Marreiros – Desenho e Pintura”, patente na Fundação Rui Cunha até 20 de junho, o arquiteto e artista de Macau parte dessa ideia para mostrar não só obras acabadas, mas também aquilo que normalmente fica antes da exposição: os “esquissos”, “os objetos”, “as imagens”, as referências e as marcas de um processo em construção.
“O estúdio é para mim um espaço múltiplo, lugar espiritual, sítio de trabalho, de meditação e de contemplação”, afirma ao PLATAFORMA. É, acrescenta, “permanência e passagem”, um “guardador de memórias que se organizam e se revelam quando necessário”.
A intenção foi direta: “Decidi levar o meu estúdio para a galeria para partilhar não só obras finais, mas também mostrar o processo, os primeiros esquissos e registos de uma ideia, os objetos que me rodeiam, as imagens que estão por trás de uma obra acabada.” Para Alexandre Marreiros, a proposta passa por “teleportar” o estúdio para a galeria, evitando separar o processo da obra final.

A vitalidade cultural de Macau “deve ser acompanhada por uma indústria capaz de sustentar e projetar essa criação artística, colocando-a numa plataforma que não só exponha artistas locais, mas também traga grandes artistas internacionais”
A ideia de estúdio acompanha Alexandre Marreiros desde antes de ter um espaço próprio. “Recordo também não ter o que se entende por estúdio, ser muito novo e criar no meu quarto em casa da minha mãe no Monte Estoril”, conta. Mais tarde, teve estúdio sozinho e com amigos em Portugal. Em Macau, a sala de jantar da família cumpria duas funções: durante o dia era espaço doméstico; à noite transformava-se em estúdio; antes de dormir, voltava a ser sala de jantar.
Essa experiência parece ter alargado a noção de lugar de criação. O estúdio pode estar em Macau, mas também “a 10.000 km de distância no Brasil, em Portugal, na China ou no Japão”, sempre que existe “um momento de reflexão, de pensamento crítico ou de contemplação”. Nesses momentos, diz, “o desenho, a escrita ou a fotografia são as ferramentas imediatas para registar o pensamento”.
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Por isso, chama-lhe também “nave-mãe”. O estúdio de Macau guarda ideias, objetos e memórias, mas a criação não depende apenas desse espaço. Pode começar numa paisagem, numa viagem, num olhar demorado sobre a natureza. O regresso ao estúdio permite depois trabalhar essas imagens com “o tempo necessário”.
O desenho antes de tudo
Sendo arquiteto e artista, Alexandre Marreiros não separa completamente arquitetura e pintura no processo criativo. Há um território comum: o desenho. “Seja na criação artística, na arquitetura ou na maior parte das coisas que faço, sem exceções tudo nasce do pensamento, da ideia e imediatamente logo a seguir é traduzido e registado em esquisso”, explica.
Para o artista, “o desenho é prolongamento e registo primeiro e imediato do pensamento”. O papel ocupa, por isso, um lugar decisivo. Ao contrário da tela, que permite ocultar, corrigir ou sobrepor, o papel expõe o risco. “Deixa marca no processo, não me permite errar da maneira generosa que a tela possibilita”, afirma.

É nessa fragilidade que Marreiros encontra parte da força do trabalho. O erro não é apenas acidente: pode tornar-se elemento da obra. “O erro fundamental durante o processo da obra faz desta forma parte primordial do trabalho final”, diz. A exposição mostra precisamente essa relação entre pensamento, gesto e suporte, recusando a ideia de perfeição como destino único. O artista prefere falar numa “ordem de procura”, onde a obra assume a verdade do processo e as marcas que não ficam escondidas “atrás da tinta ou da máscara”.
A arquitetura entra nesse campo de forma natural. Alexandre Marreiros diz-se sensível “ao espaço e à luz, aos lugares, às cidades, aos edifícios e à natureza que rodeia a construção feita pelos homens”. Essa relação com o espaço está presente no trabalho artístico, mesmo quando não aparece de forma literal. “Diria que naturalmente a arquitetura estará mais presente no meu trabalho artístico do que vice-versa, mas estarão interligados.”
Macau, raiz e identidade
Macau atravessa a obra de Alexandre Marreiros mesmo quando não é representada diretamente. A cidade surge como memória, identidade e contexto. “Macau tem uma presença natural no meu trabalho, umas vezes de forma figurativa mas também de maneira menos evidente”, afirma.
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A relação é também familiar. “Os meus pais são macaenses, tenho avôs portugueses, uma avó chinesa e outra macaense. Vivo e trabalho em Macau, e este é o contexto que molda a minha prática.” Por isso, acrescenta, “Macau não é apenas cenário, ela é raiz, ela é identidade, é território que se inscreve inevitavelmente naquilo que crio”.
A exposição surge num momento particular: passam dez anos desde a primeira exposição individual de Alexandre Marreiros em Macau, no Museu de Arte Moderna. Ainda assim, o artista rejeita a ideia de retrospectiva. O que quis fazer foi olhar para trabalhos guardados em acervo, produzidos ao longo da última década, e perceber como se relacionam entre si.

“Acredito que o ser humano tem uma tendência natural para comparações. Fiz esse exercício com o meu trabalho, com olhar crítico, colocando questões, desvios, comportamentos e referências num estado de espírito livre (…) Desconstruí e voltei a construir, na procura de um resultado que me agrada desde o processo até à obra final”
“Não uma relação cronológica, mas a de perceber como uma obra de 2010 se relaciona com outra de 2026”, explica. Interessa-lhe observar “vestígios”, “distanciamentos” e “aproximações”, permitindo que obras de tempos diferentes se encontrem no mesmo espaço.
A abertura do estúdio à galeria também traz uma reflexão sobre o lugar da arte em Macau. Alexandre Marreiros explica que a criação artística é sempre “instrumento e registo do contexto e do tempo em que se insere”. E Macau, defende, tem matéria cultural para sustentar uma presença artística mais forte.
“Macau sempre foi terra de grandes poetas, por aqui passaram Camões e Bocage, aqui viveu Camilo Pessanha. Sempre existiram grandes artistas. Esta terra é inspiradora, possui uma cultura própria como nenhuma outra”, afirma.
No fim, Alexandre Marreiros prefere deixar espaço ao público. Não quer impor uma leitura. Quer que cada visitante encontre relações próprias entre obras, objetos e referências. “Quero partilhar e oferecer aos visitantes total liberdade de interpretação”, diz. O estúdio que chega à galeria é, afinal, esse lugar aberto: entre obra e processo, entre Macau e o mundo, entre memória e criação.