Início » Macau: O custo ambiental do turismo

Macau: O custo ambiental do turismo

Macau recebeu mais de 40 milhões de visitantes em 2025 e atingiu novo máximo de resíduos urbanos, de acordo com o Relatório do Estado do Ambiente de Macau 2025, apresentado esta semana.  Para o ambientalista Joe Chan, a cidade tem oferecido “conveniência excessiva” ao turismo e precisa de aplicar com mais determinação o princípio do “poluidor-pagador”: “Os turistas têm de cooperar com a cidade na reciclagem dos resíduos”

Carol Law, Fernando M. Ferreira

O Relatório do Estado do Ambiente de Macau 2025 mostra uma cidade com ar mais limpo, menos emissões locais de gases com efeito de estufa, mas também mais lixo. A quantidade de resíduos sólidos urbanos atingiu 532.053 toneladas no ano passado, mais 1% do que em 2024, enquanto a taxa de recolha de resíduos recicláveis caiu pelo quarto ano consecutivo, de 21.7% para 21.1%.

O relatório da Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental (DSPA) justifica a pressão dos resíduos com a estrutura turística da cidade: “Embora a população de Macau seja relativamente reduzida, a intensidade turística é elevada” e, por isso, “a quantidade de resíduos sólidos urbanos anualmente produzida excede a quantidade normal produzida pela população local”.

Assim e ainda de acordo com o relatório, no ano passado, cada residente gerou, em média, 2,13 quilogramas de resíduos urbanos por dia. Para Joe Chan, a leitura não pode ficar apenas na “responsabilidade dos residentes”.

“No Japão, Taiwan e Coreia, os turistas têm de cooperar com a cidade na reciclagem dos resíduos. Não podem simplesmente colocá-los no caixote do lixo; têm de os levar de volta para o hotel e reciclá-los lá”, afirma ao PLATAFORMA, defendendo que separar os resíduos turísticos dos resíduos domésticos é uma “estratégia científica”.

O aumento do ozono e do dióxido de enxofre indica que a poluição atmosférica continua a ser um problema regional – Thomas Lei, professor na Universidade de São José

Chan defende que Macau siga os exemplos de Singapura, Coreia do Sul, Japão e Hong Kong, legislando contra a disponibilização de artigos descartáveis de uso único nos quartos de hotel. O ambientalista sublinha também a falta de determinação na aplicação do princípio do “poluidor-pagador”, apontando a ausência de uma “proibição à importação de recipientes descartáveis de plástico de uso único” e a “falta de regras para o excesso de embalagens de produtos entregues a partir do Interior da China”.

“A proporção de embalagens de encomendas aumentou drasticamente, mas não existe cobrança pelo descarte ao comprador ou consumidor”, afirma. Para Chan, a cobrança sobre resíduos domésticos deve ser a solução final, desde que acompanhada por “educação ambiental” e “promoção efetiva da reciclagem”.

Ar melhora, ozono preocupa

No ambiente atmosférico, o relatório apresenta uma evolução globalmente positiva. Em 2025, as concentrações médias anuais de PM10 e PM2,5 caíram 3.5% e 2.3%, respectivamente, enquanto o dióxido de azoto diminuiu 1.7%. Face a 2016, as concentrações médias anuais de PM2,5, PM10, dióxido de enxofre, dióxido de azoto e monóxido de carbono recuaram 32.9%, 17.6%, 45%, 29.2% e 25%.

No Japão, Taiwan e Coreia, os turistas têm de cooperar com a cidade na reciclagem dos resíduos. Não podem simplesmente colocá-los no caixote do lixo; têm de os levar de volta para o hotel e reciclá-los lá – Joe Chan, ambientalista

Ainda assim, nem todos os indicadores melhoraram. O ozono subiu 2.4% e o dióxido de enxofre aumentou 2.3%. O relatório identifica as partículas finas em suspensão e o ozono como os principais poluentes atmosféricos da cidade.

Thomas Lei, cientista ambiental e professor assistente na Universidade de São José, considera que a queda de longo prazo dos poluentes primários mostra a “eficácia das medidas locais e regionais” de redução de emissões. Mas deixa um aviso: “O aumento do ozono e do dióxido de enxofre indica que a poluição atmosférica continua a ser um problema regional”.

O ozono é um “poluente secundário formado através de reações fotoquímicas complexas de precursores”, incluindo “compostos orgânicos voláteis e óxidos de azoto, transportados a longas distâncias”, explica Lei ao PLATAFORMA. Já o dióxido de enxofre está associado a grandes fontes industriais e à combustão de fuelóleo pesado, “especialmente no transporte marítimo”, na região.

Leia também: Demolição do Edifício Transparente no Porto: “É feio e vai ser reformulado para bem do ambiente e das pessoas”

As emissões locais de gases com efeito de estufa caíram 1.8% em 2025, uma redução que Thomas Lei classifica como “modesta”. E aponta duas razões principais: a produção de eletricidade continua “fortemente dependente da energia importada” e os transportes terrestres continuam “dominados por veículos com motores de combustão interna”.

“Se Macau quiser alcançar uma descarbonização significativa, a utilização de energias renováveis, como solar e eólica, tem de aumentar substancialmente, e a maioria dos veículos com motor de combustão interna deve transitar para veículos eléctricos a bateria”, defende.

O número de veículos eléctricos em Macau subiu 34.6% em 2025, para 16.339. Entre os novos automóveis ligeiros, a proporção de eléctricos passou de cerca de 4% em 2019 para 38.5%. Nos motociclos, a quota de modelos eléctricos subiu de cerca de 2% para 36.8% desde o lançamento do plano de apoio financeiro, em 2022.

Ainda assim, Joe Chan lamenta que “não tenham sido construídas instalações significativas de energia renovável nas novas zonas de aterro”. O ambientalista considera que a “nova rede ferroviária urbana e a electrificação dos carros privados poderão ajudar a reduzir emissões”, mas lembra que a “incineração” continua ligada ao “problema dos resíduos”.

“Os resíduos alimentares representam até 40% dos resíduos incinerados. Se o programa de reciclagem puder ser promovido em toda a cidade, aliviará muito a pressão sobre a incineração”, diz ao PLATAFORMA.

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website