O Relatório do Estado do Ambiente de Macau 2025 mostra uma cidade com ar mais limpo, menos emissões locais de gases com efeito de estufa, mas também mais lixo. A quantidade de resíduos sólidos urbanos atingiu 532.053 toneladas no ano passado, mais 1% do que em 2024, enquanto a taxa de recolha de resíduos recicláveis caiu pelo quarto ano consecutivo, de 21.7% para 21.1%.
O relatório da Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental (DSPA) justifica a pressão dos resíduos com a estrutura turística da cidade: “Embora a população de Macau seja relativamente reduzida, a intensidade turística é elevada” e, por isso, “a quantidade de resíduos sólidos urbanos anualmente produzida excede a quantidade normal produzida pela população local”.
Assim e ainda de acordo com o relatório, no ano passado, cada residente gerou, em média, 2,13 quilogramas de resíduos urbanos por dia. Para Joe Chan, a leitura não pode ficar apenas na “responsabilidade dos residentes”.
“No Japão, Taiwan e Coreia, os turistas têm de cooperar com a cidade na reciclagem dos resíduos. Não podem simplesmente colocá-los no caixote do lixo; têm de os levar de volta para o hotel e reciclá-los lá”, afirma ao PLATAFORMA, defendendo que separar os resíduos turísticos dos resíduos domésticos é uma “estratégia científica”.
O aumento do ozono e do dióxido de enxofre indica que a poluição atmosférica continua a ser um problema regional – Thomas Lei, professor na Universidade de São José
Chan defende que Macau siga os exemplos de Singapura, Coreia do Sul, Japão e Hong Kong, legislando contra a disponibilização de artigos descartáveis de uso único nos quartos de hotel. O ambientalista sublinha também a falta de determinação na aplicação do princípio do “poluidor-pagador”, apontando a ausência de uma “proibição à importação de recipientes descartáveis de plástico de uso único” e a “falta de regras para o excesso de embalagens de produtos entregues a partir do Interior da China”.

“A proporção de embalagens de encomendas aumentou drasticamente, mas não existe cobrança pelo descarte ao comprador ou consumidor”, afirma. Para Chan, a cobrança sobre resíduos domésticos deve ser a solução final, desde que acompanhada por “educação ambiental” e “promoção efetiva da reciclagem”.
Ar melhora, ozono preocupa
No ambiente atmosférico, o relatório apresenta uma evolução globalmente positiva. Em 2025, as concentrações médias anuais de PM10 e PM2,5 caíram 3.5% e 2.3%, respectivamente, enquanto o dióxido de azoto diminuiu 1.7%. Face a 2016, as concentrações médias anuais de PM2,5, PM10, dióxido de enxofre, dióxido de azoto e monóxido de carbono recuaram 32.9%, 17.6%, 45%, 29.2% e 25%.
No Japão, Taiwan e Coreia, os turistas têm de cooperar com a cidade na reciclagem dos resíduos. Não podem simplesmente colocá-los no caixote do lixo; têm de os levar de volta para o hotel e reciclá-los lá – Joe Chan, ambientalista
Ainda assim, nem todos os indicadores melhoraram. O ozono subiu 2.4% e o dióxido de enxofre aumentou 2.3%. O relatório identifica as partículas finas em suspensão e o ozono como os principais poluentes atmosféricos da cidade.
Thomas Lei, cientista ambiental e professor assistente na Universidade de São José, considera que a queda de longo prazo dos poluentes primários mostra a “eficácia das medidas locais e regionais” de redução de emissões. Mas deixa um aviso: “O aumento do ozono e do dióxido de enxofre indica que a poluição atmosférica continua a ser um problema regional”.
O ozono é um “poluente secundário formado através de reações fotoquímicas complexas de precursores”, incluindo “compostos orgânicos voláteis e óxidos de azoto, transportados a longas distâncias”, explica Lei ao PLATAFORMA. Já o dióxido de enxofre está associado a grandes fontes industriais e à combustão de fuelóleo pesado, “especialmente no transporte marítimo”, na região.
Leia também: Demolição do Edifício Transparente no Porto: “É feio e vai ser reformulado para bem do ambiente e das pessoas”
As emissões locais de gases com efeito de estufa caíram 1.8% em 2025, uma redução que Thomas Lei classifica como “modesta”. E aponta duas razões principais: a produção de eletricidade continua “fortemente dependente da energia importada” e os transportes terrestres continuam “dominados por veículos com motores de combustão interna”.
“Se Macau quiser alcançar uma descarbonização significativa, a utilização de energias renováveis, como solar e eólica, tem de aumentar substancialmente, e a maioria dos veículos com motor de combustão interna deve transitar para veículos eléctricos a bateria”, defende.
O número de veículos eléctricos em Macau subiu 34.6% em 2025, para 16.339. Entre os novos automóveis ligeiros, a proporção de eléctricos passou de cerca de 4% em 2019 para 38.5%. Nos motociclos, a quota de modelos eléctricos subiu de cerca de 2% para 36.8% desde o lançamento do plano de apoio financeiro, em 2022.
Ainda assim, Joe Chan lamenta que “não tenham sido construídas instalações significativas de energia renovável nas novas zonas de aterro”. O ambientalista considera que a “nova rede ferroviária urbana e a electrificação dos carros privados poderão ajudar a reduzir emissões”, mas lembra que a “incineração” continua ligada ao “problema dos resíduos”.
“Os resíduos alimentares representam até 40% dos resíduos incinerados. Se o programa de reciclagem puder ser promovido em toda a cidade, aliviará muito a pressão sobre a incineração”, diz ao PLATAFORMA.