A Assembleia Popular Nacional da China (APN) aprovou em 12 de março o plano de desenvolvimento para o período 2026-2030, um documento considerado determinante para a modernização de um país que representa quase um quinto da população mundial.
Enquanto segunda maior economia do mundo, a China define a sua estratégia através de planos de médio e longo prazo que estabelecem as orientações políticas, os objetivos de desenvolvimento e as prioridades de reforma, proporcionando um grau de previsibilidade que contrasta com os ciclos eleitorais de curto prazo de muitos países.
“Para nós, o Plano Quinquenal é mais do que um plano macroeconómico”, afirmou Ginger Cheng, diretora-executiva do DBS China. “Funciona como um metrónomo estratégico que orienta o nosso ritmo de investimento e garante que continuamos alinhados com os principais ciclos de desenvolvimento nacional.”
O esboço do 15.º Plano Quinquenal (2026-2030) para o desenvolvimento económico e social estabelece um vasto conjunto de metas, colocando o desenvolvimento de alta qualidade no centro da estratégia. Os principais indicadores abrangem áreas como o crescimento económico, a inovação, o bem-estar da população, a transição ecológica e a segurança. Muitos desses indicadores estão diretamente ligados às condições de vida da população, transmitindo a mensagem de que o desenvolvimento deve traduzir-se em benefícios concretos para os cidadãos.
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Wu Fenggang, membro da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, considerou que os indicadores definidos no novo plano incentivarão os responsáveis governamentais a ultrapassar uma visão centrada exclusivamente no Produto Interno Bruto (PIB), promovendo uma governação mais equilibrada e responsável. Segundo o responsável, esta orientação está alinhada com o conceito de “visão correta sobre o desempenho da governação”, um dos temas centrais das “Duas Sessões” deste ano.
O objetivo da modernização acompanha a história contemporânea da China há várias gerações. Após a Guerra do Ópio, em 1840, o país enfrentou invasões estrangeiras e um longo período de pobreza e fragilidade, contexto que levou o Partido Comunista Chinês (PCC) a assumir a modernização como um dos seus principais objetivos estratégicos.
Em 2017, o PCC definiu um roteiro dividido em duas etapas. Entre 2020 e 2035, a China pretende concretizar, em termos gerais, a modernização socialista, processo que abrange os 14.º, 15.º e 16.º Planos Quinquenais.
Numa segunda fase, entre 2035 e meados do século, o país prevê, através de mais três planos quinquenais, transformar-se num “grande país socialista moderno”, descrito como próspero, forte, democrático, culturalmente desenvolvido, harmonioso e ambientalmente sustentável.

A sessão de encerramento da quarta sessão da 14.ª APN realizou-se no Grande Salão do Povo, em Pequim, capital da China, a 12 de março de 2026. (Foto: Xinhua)
Neste contexto, o período abrangido pelo 15.º Plano Quinquenal assume um papel decisivo, uma vez que os objetivos definidos para 2026-2030 serão determinantes para avaliar se a China conseguirá cumprir o calendário previsto para alcançar a modernização socialista.
O plano estabelece igualmente metas para reforçar a capacidade nacional em diversos setores, atribuindo especial destaque à indústria transformadora. A China mantém há 16 anos consecutivos a maior produção industrial transformadora do mundo em termos de valor acrescentado.
Entre as prioridades figura também a construção de um sistema industrial moderno e o reforço da economia real. O país pretende modernizar os setores tradicionais, posicionando-os em segmentos de maior valor acrescentado, desenvolver indústrias emergentes e planear antecipadamente setores considerados estratégicos para o futuro.
Janice Hu, presidente da UBS Securities Co. Ltd., afirmou que as empresas chinesas têm demonstrado uma forte capacidade de inovação em áreas como inteligência artificial, fabrico avançado, semicondutores e novas energias, alterando a perceção dos investidores internacionais sobre os ativos chineses.

Uma fotografia tirada por um ‘drone’ mostra a produção automatizada na Super Fábrica de Seres, na Nova Área de Liangjiang, em Chongqing, no sudoeste da China, a 19 de setembro de 2025. (Foto: Xinhua)
“Os ativos chineses deixaram de ser apenas uma opção de diversificação. Tornaram-se um ativo estratégico indispensável”, afirmou Hu à agência Xinhua.
Num contexto em que alguns países adoptam políticas protecionistas, o plano prevê que a China continue a abrir o seu mercado, transformando-o numa plataforma de cooperação internacional e de novas oportunidades económicas. O documento estabelece ainda como prioridade melhorar a qualidade do comércio externo.
“As exportações e as importações são como as duas rodas de um automóvel. Quanto mais equilibradas estiverem, mais estável será a viagem e mais longe será possível chegar”, afirmou o ministro do Comércio, Wang Wentao, durante uma conferência de imprensa à margem da sessão legislativa.
Durante o 14.º Plano Quinquenal (2021-2025), a economia chinesa registou um crescimento considerado expressivo. O PIB ultrapassou sucessivamente os 110 biliões, 120 biliões, 130 biliões e 140 biliões de yuan, registando um crescimento médio anual de 5.4%, acima da média mundial.

Agricultores debulham a cevada das terras altas à maneira tradicional no condado de Lhunzhub, na Região Autónoma do Xizang, no sudoeste da China, a 23 de setembro de 2025. (Foto: Xinhua)
Para Zhang Shuibo, deputado da APN e professor da Universidade de Tianjin, a aposta do novo plano no desenvolvimento de alta qualidade constitui um fator de estabilidade num contexto internacional marcado pela crescente incerteza.
“O enfoque no desenvolvimento de alta qualidade permitirá abrir um novo capítulo nos dois grandes feitos da China: o rápido crescimento económico e a estabilidade social de longo prazo”, afirmou.
Também Chen Zhanming, vice-diretor da Escola de Economia Aplicada da Universidade Renmin da China, defendeu, em declarações à Xinhua, que a estratégia de desenvolvimento de longo prazo seguida por Pequim transformou a China num raro fator de estabilidade na economia mundial, numa altura em que aumentam as tensões geopolíticas e a incerteza económica.
Num artigo publicado recentemente na Eurasia Review, o analista geoestratégico Imran Khalid classificou as “Duas Sessões” deste ano como um momento decisivo. Segundo o autor, o roteiro definido no 15.º Plano Quinquenal demonstra que a China tem uma visão clara do seu futuro e pretende liderar o desenvolvimento das indústrias do século XXI.
Em poucas décadas, a China completou um processo de transformação que levou séculos a outras economias, passando de um país marcado pela pobreza e pela agressão estrangeira para a segunda maior economia mundial. Segundo o texto, este percurso reforça a confiança na concretização dos próximos objetivos de desenvolvimento.
Como afirmou o Presidente Xi Jinping: “Enquanto mantivermos a determinação estratégica, avançarmos passo a passo e consolidarmos cada etapa do desenvolvimento do Partido e do país, continuaremos a transformar pequenas vitórias em grandes conquistas e os nossos objetivos serão alcançados.”