Victor, designer mais premiado de Macau, subordinou a criação “à vida” que quis para si. “Desde criança”; porque o irmão desenhava, e quis “desenhar como ele” – Carlos Marreiros. Chegou a expor fotografia, pintura acrílica; depois, “lutei foi para ser designer gráfico”. Alexandre conhece esse “estado primitivo”. Há 300 anos, “provavelmente seriam pescadores – e eu também. “Mas os tempos mudaram” e, filhos de militar, pai e tio puderam escolher: arquitetura, design… arte. Como ele, também arquiteto e artista. “Por vocação, acho eu que foi”.
Muitos anos diretor no Instituto Cultural, Victor – entretanto reformado – geria muita gente, muitos projetos; sobrava pouco tempo. Nos intervalos, curtos, descobriu a via digital, numa “relação íntima entre a vida e a criatividade”. Nada projetado, nem baseado em sonhos; “é o meu percurso normal, processo interior completamente puro”. Cada vez menos; em paz com a idade, desacelera – mas não para: “Meto a mão em todas as técnicas, mas o produto final é digital”. Explica-se com a parábola do ginásio: “Além daquelas duas horas, há o caminho, o banho… Para mim, é mais fácil o computador do que parar, ir ao ateliê, lavar os pincéis…” Conhece a força do berço: “Macau, pela sua natureza, e cultura, é um lugar muito rico – e fácil – para o artista. Houve sempre muita gente a fazer aguarelas, pintura chinesa… a cidade foi sempre rica para qualquer criativo”.
Alexandre lê na família a história da cidade, “reflexo do tempo em que nasceram e cresceram”. Puderam fazer escolhas, “como eu podia ser outra coisa qualquer”. Agora, “cresci entre arquitetos e artistas; não se falava só de bola. Vi o meu pai desenhar, o meu tio a fazer design; é natural alguma influência”. E o mundo continua a girar: “Quero que os meus filhos sejam artistas? Não! A vida é difícil, importa é quererem fazer uma coisa e eu estar lá para apoiar”.
O artista está isolado; não tem escolas, galerias, museus que participem nisso. Basta ver aqui ao lado, na China… outra coisa é perceber como isso se faz numa terra tão pequena
Alexandre Marreiros
Inspiraram-se ambos em casa, na vida, em Macau… adotam a luta: “Vamos ser francos”, dispara Alexandre: “A arte é uma indústria”. E mostra o padrão que o atormenta: “O meu tio, talvez o melhor designer de Macau; o meu pai, grande artista e arquiteto que participou na cidade – como eu participo de outra maneira, noutra geração – desenvolvemos os nossos projetos artísticos em paralelo com as nossas profissões”.
A questão é geral – e central. “Se calhar, só o Konstantin [Bessmertny] é artista puro e duro”. Alexandre cita Lai Sio Kit, “grande artista de Macau, como foi Mio Pang Fei, não consegue ser só artista; dá aulas, está ligado a uma associação. Não se consegue fazer da vocação e do talento uma coisa a que te dediques”. É “bom fazer outras coisas”, mas “não podes chegar a um nível internacional se o sistema que te promove dá-te a mão, por um lado; e, do outro, não consegues ser autonomamente artista”. Macau tem pessoas “muito boas, em várias áreas; mas, depois, são funcionários públicos… Não há definição, galerias, uma boa escola de artes, um grande museu que participe nisto. Temos de perceber a direção correta para sermos ativos numa indústria específica”. Assim… “não podemos ficar só aqui, nesta cidade”.
Uma indústria não depende só do criador – dos artistas – tem de envolver toda a sociedade, o interesse do Governo
Víctor Marreiros
A China, diz Alexandre, “tem vontade de nos conhecer”. Há uma série de exposições, mas a escala é gigantesca, a competição acelerada. “Uma indústria tem que gerar dinheiro; temos de competir; não pode ser para cumprir o calendário, para dizer que se faz. Macau pode servir para nós, locais, irmos à China e outros países; para trazer artistas internacionais que deixam experiência e ponham Macau no mapa”. Victor ouve, sorri, diz sim com a cabeça; não quer interromper, espera… e apoia: “Tem toda a razão; fala-se de indústrias criativas, que se apoia de longa data; mas qual é o resultado? As pessoas que criaram esse projeto já fizeram esse estudo? Não podemos dizer que o Governo não apoia; mas, sendo de Macau, profissional da área, artista ligado à cultura, digo que tem de haver objetivos, foco, resultados. Também há muita falta de carinho”. Mesmo com todos os ingredientes para um artista criar, “não vivemos do ar; pessoalmente não me queixo, mais como designer que como artista”. Agora, “o mercado de compra e venda, como indústria, não é bom – nunca foi”.
E não falta dinheiro. Victor expõe: “Falta cultura, gosto, hábitos”. E insiste: “Quem projeta as indústrias criativas tem de ser mais abrangente, focado; tem de perguntar pelos resultados. Qual é o esforço para promover; ou, antes disso, para acarinhar os artistas locais? O que foi feito para projetar o artista a nível internacional? Passamos a vida aqui, com reconhecimento pontual”. Puxa a brasa à sardinha, assume a expressão: em Macau, “a profissão de designer, de longe, é mais premiada nos concursos internacionais; há duas semanas, um designer local ganhou três prémios na Escócia. É de outra geração, nem sequer a seguir à minha, mais jovem ainda. E outros virão; não sei se o Governo e a população, sabem disso”.

Alexandre segue a pista: “Se queremos uma indústria, vamos perceber isso. Gasto mais num quadro que num bom carro, mas quem quer um bom carro está no seu direito. Agora, podes adquirir uma obra, porque gostas, ou porque estás a investir. E isso é importante; 70% dos colecionadores pensam – e bem – que compram hoje a 10; e, daqui a dez anos, vale mil. Ter indústrias criativas é montar uma indústria, defini-la; a criatividade alimenta essa indústria”. Mas “Macau não tem isso”.
A Grande Baía é um conceito maravilhoso, mas já navegámos o suficiente para todos juntos, em diversas áreas, definirmos onde queremos ir; em que acreditamos
Alexandre Marreiros
Na Bienal de Veneza, expoente mundial da arte; “participamos e, com todo o respeito, temos uma qualidade incrível, melhor que muitos grandes artistas que vão lá expor; mas ninguém lá vai por Macau; ninguém sabe, nem sequer conhece”, lamenta Alexandre, pedindo ‘branding’, promoção, reconhecimento: “O artista está isolado; não tem escolas, galerias, museus que participem nisso. Basta ver aqui ao lado, na China… outra coisa é perceber como isso se faz numa terra tão pequena”.
O papel da arte na preservação da identidade ganha terreno no debate da integração regional; mas ela não é estática, transforma-se. Alexandre fala de um “organismo vivo, em mutação acelerada”; aliás, “foi sempre assim, mais até que noutros lados”. Sendo “ponto de partida – não de chegada”, importa é “perceber, com a nossa identidade, como participar de maneira ativa e, sobretudo, competitiva”. Alexandre assume a pertença no “clube da Grande Baía”; onde, “se formos competitivos, Guangdong, Hong Kong ou Shenzhen terão de ser tão bons ou melhor que nós; se partimos atrás, temos de ser tão bons ou melhores que eles”. Na plataforma lusófona, supostamente “partimos à frente”; mas até aí o terreno é movediço: “Achava que estávamos bem colocados nessa corrida; mas já não sei se isso é real? Em muitas áreas, o Brasil, e mesmo África, já não passam por cá. E o problema não está em Pequim – é nosso”.
Macau sempre precisou de uma identidade; e, se quer sobreviver num mundo muito maior, é bom mantê-la; com parte lusófona – ou não
Victor Marreiros
Muda o tema e Victor volta ao ponto; tem a síntese bem resolvida: “A identidade, ao longo dos anos, vai-se alterando; faz parte das características desta terra. Macau sempre precisou de uma identidade; e, se quer sobreviver num mundo muito maior, é bom mantê-la; com parte lusófona – ou não. É um acréscimo; agora, tem de ser uma coisa querida, projetada, com objetivos. Primeiro temos de nos afirmar no mundo; a qualidade não está em causa; mas, só por si, os artistas não conseguem – custa muito mais. Uma indústria não depende só do criador – dos artistas – tem de envolver toda a sociedade, o interesse do Governo”.
Alexandre revê a conversa, escolhe a mensagem final: “Estar focado no ser humano é muito importante; seja numa tarefa, visão, sonho ou negócio. Temos tempo, mas já é tempo de nos focarmos e saber para onde vamos. Podemos errar, mas temos de ter um objetivo, com dores de crescimento, erros, aprendizagem… A Grande Baía é um conceito maravilhoso, mas posto em prática numa navegação à vista. Já navegámos o suficiente para todos juntos, em diversas áreas, definirmos onde queremos ir; em que acreditamos”. Victor escolhe a última palavra: “Insisto sempre no objetivo, nos ‘targets’. Há um todo; não é cada um por si e ver onde chegamos”. Mas Alexandre não resiste: “É como um barco-dragão; se cada um rema para o seu lado, não sai do mesmo sítio”.