A nova proposta de ordenamento para a Zona Norte da Taipa, apresentada no início deste mês – “Actualização do Plano de Ordenamento Urbanístico da Zona Norte da Taipa (2026)” – abrange cerca de 222 mil metros quadrados. O posicionamento geral passa por criar uma “zona habitacional e comercial, integrada na envolvente paisagística da colina”, com capacidade para cerca de 20 mil habitantes.
Para Nuno Soares, diretor do CURB – Centro de Arquitetura e Urbanismo, o plano tem méritos claros, sobretudo na criação de espaço público, no reforço da mobilidade pedonal e na preservação das árvores antigas.
Ainda assim, lamenta que a identidade rural da antiga aldeia de Cheok Ka não tenha sido mais incorporada no desenho urbano. “A ideia de dar continuidade à aldeia foi uma oportunidade perdida nesta parte”, diz ao PLATAFORMA.
O projeto prevê ainda a construção do Parque do Conjunto de Árvores Antigas e do Parque da Zona Norte da Taipa. O Templo de Kuan Tai e Tin Hau e 23 árvores antigas ficam protegidos ao abrigo da Lei de Salvaguarda do Património Cultural, com a delimitação de uma zona de proteção adjacente.
Segundo o documento, a zona enfrenta vários constrangimentos, incluindo a “distribuição dispersa de terrenos privados”, a necessidade de “salvaguardar património cultural” e “recursos arbóreos”, a “insuficiência da rede viária” e dos “espaços verdes”, e a “integração com as áreas adjacentes”.
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Nuno Soares reconhece que a proposta responde a uma falha antiga: a desconexão entre a área consolidada da Taipa e esta zona. O plano dá ênfase à circulação pedonal e a um corredor verde central onde as árvores antigas assumem papel relevante. A sua preservação, considera, “é positiva e pode melhorar a qualidade de vida urbana”: “Após a implementação do plano, a Taipa terá um espaço público com melhores ligações”.

Entre densidade e memória
O ponto mais sensível está na forma como o novo desenvolvimento se relaciona com a antiga Povoação de Cheok Ka. Muitos terrenos privados situam-se em redor das árvores antigas, numa zona associada à memória rural da Taipa.
Para Nuno Soares, a necessidade de densidade urbana “é compreensível”, tendo em conta a “escassez de terrenos em Macau”. Mas isso não deveria impedir a preservação de uma diferença de escala entre a antiga aldeia e o novo tecido urbano.
“Precisamos de edifícios altos e de alta densidade, pois não temos muitos terrenos em Macau. Mas, por vezes, é importante manter este contraste entre as aldeias e o desenvolvimento urbano”, explica Soares.
O arquiteto defende que a antiga aldeia poderia ter sido assumida como “elemento estruturante” do novo bairro: “Assim, as pessoas não diriam apenas que vivem na Zona Norte da Taipa, mas sim que vivem no novo desenvolvimento da Povoação de Cheok Ka”.
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Antiga aldeia agrícola, Cheok Ka representa, segundo Soares, mais do que as árvores agora preservadas. Também a paisagem agrícola e produtiva deveria ajudar a diferenciar o futuro espaço urbano, “para não termos apenas o mesmo tipo de parques em todo o lado em Macau”.
Para o arquiteto, a paisagem deve refletir as condições próprias da área e não repetir modelos aplicados noutras zonas da cidade. Soares sublinha ainda a importância de ligar melhor a Zona Norte à Vila da Taipa e de planear redes de transportes públicos, como o Metro Ligeiro, “para não precisarmos de investir tanto em transportes privados”.
Novo plano, 13 anos depois
A proposta para a Zona Norte da Taipa recupera um processo iniciado em 2013, então suspenso devido à contestação pública e à entrada em vigor da Lei do Planeamento Urbano, em março de 2014. O plano original previa 223 mil metros quadrados de terreno, 1,26 milhões de metros quadrados de área de construção e 36.500 habitantes.
Segundo a Direcção dos Serviços de Solos e Construção Urbana (DSSCU), o plano original incluía “a necessidade de transplante de árvores antigas, a realização de permutas de terrenos de grande dimensão e a falta de interação com as zonas adjacentes”. A preservação das árvores voltou a gerar debate em 2022, quando uma nova via obrigaria à deslocalização de dez árvores antigas. Face à reação pública, o Governo suspendeu o projeto.
Nesta nova versão, a área de espaços verdes e públicos por habitante é 2,2 vezes superior à de 2013, e a de equipamentos coletivos aumentou 1,7 vezes.