Início » Identidade perdida na nova Taipa

Identidade perdida na nova Taipa

O plano para a Zona Norte da Taipa pode melhorar as ligações urbanas e criar um novo espaço público, mas Nuno Soares lamenta que a antiga Povoação de Cheok Ka não tenha sido assumida como referência central do projeto: “A ideia de dar continuidade à aldeia foi uma oportunidade perdida”

Carol Law

A nova proposta de ordenamento para a Zona Norte da Taipa, apresentada no início deste mês – “Actualização do Plano de Ordenamento Urbanístico da Zona Norte da Taipa (2026)” – abrange cerca de 222 mil metros quadrados. O posicionamento geral passa por criar uma “zona habitacional e comercial, integrada na envolvente paisagística da colina”, com capacidade para cerca de 20 mil habitantes.

Para Nuno Soares, diretor do CURB – Centro de Arquitetura e Urbanismo, o plano tem méritos claros, sobretudo na criação de espaço público, no reforço da mobilidade pedonal e na preservação das árvores antigas.

Ainda assim, lamenta que a identidade rural da antiga aldeia de Cheok Ka não tenha sido mais incorporada no desenho urbano. “A ideia de dar continuidade à aldeia foi uma oportunidade perdida nesta parte”, diz ao PLATAFORMA.

O projeto prevê ainda a construção do Parque do Conjunto de Árvores Antigas e do Parque da Zona Norte da Taipa. O Templo de Kuan Tai e Tin Hau e 23 árvores antigas ficam protegidos ao abrigo da Lei de Salvaguarda do Património Cultural, com a delimitação de uma zona de proteção adjacente.

Segundo o documento, a zona enfrenta vários constrangimentos, incluindo a “distribuição dispersa de terrenos privados”, a necessidade de “salvaguardar património cultural” e “recursos arbóreos”, a “insuficiência da rede viária” e dos “espaços verdes”, e a “integração com as áreas adjacentes”.

Leia também: Open House Macau está de volta

Nuno Soares reconhece que a proposta responde a uma falha antiga: a desconexão entre a área consolidada da Taipa e esta zona. O plano dá ênfase à circulação pedonal e a um corredor verde central onde as árvores antigas assumem papel relevante. A sua preservação, considera, “é positiva e pode melhorar a qualidade de vida urbana”: “Após a implementação do plano, a Taipa terá um espaço público com melhores ligações”.

Entre densidade e memória

O ponto mais sensível está na forma como o novo desenvolvimento se relaciona com a antiga Povoação de Cheok Ka. Muitos terrenos privados situam-se em redor das árvores antigas, numa zona associada à memória rural da Taipa.

Para Nuno Soares, a necessidade de densidade urbana “é compreensível”, tendo em conta a “escassez de terrenos em Macau”. Mas isso não deveria impedir a preservação de uma diferença de escala entre a antiga aldeia e o novo tecido urbano.

“Precisamos de edifícios altos e de alta densidade, pois não temos muitos terrenos em Macau. Mas, por vezes, é importante manter este contraste entre as aldeias e o desenvolvimento urbano”, explica Soares.

O arquiteto defende que a antiga aldeia poderia ter sido assumida como “elemento estruturante” do novo bairro: “Assim, as pessoas não diriam apenas que vivem na Zona Norte da Taipa, mas sim que vivem no novo desenvolvimento da Povoação de Cheok Ka”.

Leia também: Urbanismo: Sugeridas medidas para evitar turismo em excesso

Antiga aldeia agrícola, Cheok Ka representa, segundo Soares, mais do que as árvores agora preservadas. Também a paisagem agrícola e produtiva deveria ajudar a diferenciar o futuro espaço urbano, “para não termos apenas o mesmo tipo de parques em todo o lado em Macau”.

Para o arquiteto, a paisagem deve refletir as condições próprias da área e não repetir modelos aplicados noutras zonas da cidade. Soares sublinha ainda a importância de ligar melhor a Zona Norte à Vila da Taipa e de planear redes de transportes públicos, como o Metro Ligeiro, “para não precisarmos de investir tanto em transportes privados”.

 

Novo plano, 13 anos depois

A proposta para a Zona Norte da Taipa recupera um processo iniciado em 2013, então suspenso devido à contestação pública e à entrada em vigor da Lei do Planeamento Urbano, em março de 2014. O plano original previa 223 mil metros quadrados de terreno, 1,26 milhões de metros quadrados de área de construção e 36.500 habitantes.

Segundo a Direcção dos Serviços de Solos e Construção Urbana (DSSCU), o plano original incluía “a necessidade de transplante de árvores antigas, a realização de permutas de terrenos de grande dimensão e a falta de interação com as zonas adjacentes”. A preservação das árvores voltou a gerar debate em 2022, quando uma nova via obrigaria à deslocalização de dez árvores antigas. Face à reação pública, o Governo suspendeu o projeto.

Nesta nova versão, a área de espaços verdes e públicos por habitante é 2,2 vezes superior à de 2013, e a de equipamentos coletivos aumentou 1,7 vezes.

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website