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APOMAC pede mais diálogo com Governo

Paulo Rego

Jorge Fão, presidente da Assembleia Geral da APOMAC, associação dos pensionistas, denuncia a falta de canais de comunicação com um “Governo muito burocratizado”, que tem a “máquina administrativa empenada”. Por contraponto com o Gabinete de Ligação: “Nos últimos dois anos e meio, já cá vieram dois vice-diretores”.

 

 

A APOMAC comemora as bodas de prata; 25 anos em linha com a transição de poderes. A vida hoje é mais fácil; ou mais difícil do que parece?

Jorge Fão – Devido à passagem de testemunho, os aposentados passaram a receber as suas pensões por um outro país. Que eu saiba, nenhuma província ultramarina teve o mesmo desfecho. Macau foi exceção por duas circunstâncias: houve tempo para negociar o pagamento das pensões por via do Estado português, através da Caixa Geral de Aposentações; e, com alguns amigos e conterrâneos, estivemos sempre a trabalhar de forma bastante entusiástica. Pressionámos o Governo português, em várias deslocações a Portugal; estivemos em Pequim, onde falámos com as entidades competentes, e percebemos que a situação das pensões teria desfecho satisfatório.

– Por isso nasce a APOMAC?

J.F. – As pensões são pagas por Portugal e as pessoas recebem em Macau; daí a necessidade de criar uma associação para lidar com essas questões; até por causa da burocracia em Portugal, e da própria língua. Boa parte dos pensionistas não entende português; alguns nem sequer o chinês, são pessoas que nunca estudaram na vida.

– O nível de vida dos pensionistas corresponde às expetativas?

J.F. – Ao longo dos últimos 25 anos, Macau teve períodos áureos, nomeadamente quando o Governo se lembrou de acabar com a exclusividade nos casinos. Temos um PIB dos mais elevados do mundo; e a China também tem um PIB muito alto; portanto, Macau tem sorte. Vivemos tranquilamente, com dinheiro, e a China é um país com poder económico; e uma palavra a dizer no mundo; tem muitos aliados em todas as latitudes e quadrantes.

O apoio do Governo, por via da Fundação Macau, é cada vez menor; reduz anualmente e o aperto nas nossas contas é evidente

– Lista que aumenta com o desgaste internacional dos Estados Unidos…

J.F. – Exatamente; a ordem mundial pode mudar de mãos. Se calhar é por isso que os ocidentais – nomeadamente a América – estão com medo. O dólar americano ainda dita regras, mas já dita menos; e, neste momento, o BRICS tem mais peso que o G7. A China está a ganhar muita força; e as pessoas que falam mal é porque não conhecem bem a China. Se formos ver a História, nunca foi um país que viveu de conquistas e hegemonia; nunca teve grandes colónias.

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– Macau ganha com isso?

J.F. – Macau ganha com isso. Se me pergunta se é mais fácil viver em Macau do que no passado; sinceramente, não é mais difícil. Desde que não façam coisas contrárias à política de segurança nacional; e nós não vamos fazer isto. Sempre fui bastante crítico; durante a Administração portuguesa e no presente; se tiver que continuar a criticar, continuo. Mas não tem nada a ver com a segurança do país, têm a ver com a segurança e o bem-estar dos aposentados; fazemos propostas e damos sugestões. Também podemos falar sobre a Função Pública; o meu passado sindical teve alguma influência nesse aspeto.

– Em declarações à Tribuna de Macau, queixa-se da falta de diálogo com o Governo. Não há canais de comunicação?

J.F. – Logo no mandato de Ho Iat Seng, sentimos na pele um certo distanciamento; por parte do CE [Chefe do Executivo] e da sua equipa. Quando o chefe não mexe, os outros também não. Que me lembre, nunca esteve na APOMAC, a não ser quando estava para ser eleito chefe. Por sinal, tinha direito a um voto, que era o meu voto. Nunca mais apareceu; deixou de existir. E o apoio do Governo, por via da Fundação Macau, é cada vez menor; reduz anualmente e o aperto nas nossas contas é evidente.

– Menos apoio e mais burocracia?

J.F. – Chegaram a pedir recibo das nossas gorjetas; é ridículo, mas passou-se. Com o atual Governo, esperava uma certa melhoria; mas, até agora, não houve. Tive um encontro com o atual CE no Palácio, juntamente com outras associações. Mas nunca ouviu a APOMAC, nunca quis saber como funciona; se está bem ou mal, como funciona. Se me tivesse convidado para uma audiência, haveria de explicar de viva voz como isto funciona, como pode melhorar. E isto tem consequências nos secretários, nos diretores de serviço, etc. Hoje em dia, um cidadão não tem acesso a ninguém. Você liga, quer falar com o diretor e não consegue; a secretária faz 500 perguntas. É muito mau.

Custa entender como sucessivos governos nem querem falar connosco; parece que têm medo da gente

–  Que consequências isso tem?

J.F. – Quando não existe comunicação a máquina empena; a máquina administrativa está empenada. No passado havia a possibilidade de a gente conversar; mas hoje ninguém quer falar com ninguém; têm medo de assumir a responsabilidade. E isso vem de cima; não vejo direções de serviços com iniciativa ou criatividade. Um funcionário só faz quando é mandado fazer; se ninguém manda, não faz nada; não toma iniciativa porque ainda é penalizado. Lembro-me de o CE ter dito ia aos serviços fiscalizar a entrada dos funcionários; e chegou mesmo a ir. É umas das coisas mais ridículas que já vi, mas ele não se sentiu ridicularizado. O chefe não tem de entrar a horas, ou sair depois da hora; tem de planear, organizar e fazer tudo funcionar. Neste momento, muitas chefias ficam oito horas no seu gabinete e não falam com ninguém.

– Governa a burocracia?

J.F. – Temos um Governo muito burocratizado. Herdaram a burocracia portuguesa e mexeram para pior; burocratizaram ainda mais. A máquina não está a funcionar.

– O que é que a sociedade civil pode fazer?

J.F. – Como não existe qualquer meio de comunicar, tem de servir-se dos média ou enviar propostas. Volta e meia mando uma para o CE, ou para a respetiva entidade tutelar, sobre o que vejo, entendo que pode ser feito ou melhorado. É a única forma. Por isso tanta gente critica naquele programa da rádio chinesa; não há outro canal para sugestões, críticas ou que quer que seja. Era bom que o Governo não pensasse que a crítica – também as faço – é para destruir; não é nada disso. Estamos a tentar construir e tornar Macau melhor.

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– Porque faz o contraponto, elogiando o Gabinete de Ligação?

J.F. – Porque essa é a realidade; acho muito estranho, mas não é de agora. Nos últimos dois anos e meio, talvez, vieram cá dois subdiretores do Gabinete de Ligação. Primeiro, a última senhora, com uma equipa para nos ouvir. Não foi para comer, eu é que, por cortesia, convidei-os para estarmos à mesa. Conversámos lindamente sobre tudo, foi muito aberto. Mais recentemente, em março, veio cá o senhor subdiretor, com um chefe de departamento e assessores. Durante cerca de uma hora, falámos de todos os aspetos; fez uma série de perguntas sobre a nossa filosofia, gestão, proveniência do dinheiro, etc. Fui muito claro e contei-lhe tudo. Criámos um canal e, neste momento, um membro da Direção, que fala mandarim, serve de elo de ligação entre a minha pessoa e o Gabinete.

– Quão importante é esse canal?

J.F. – É muito útil; mas o Governo não fez nada disso. Não estou aqui para fazer jogos de futebol; de alguma forma, a APOMAC também é uma associação política, representa uma comunidade que esteve na Função Pública. Fui indigitado pela Federação dos Operários para fazer parte da comissão de seleção do CE, fator demonstrativo de que isto tem o seu peso político. Custa entender como sucessivos governos nem querem falar connosco; parece que têm medo da gente. Não têm nada a ganhar com isso, só a perder. Da nossa parte, também perdemos. Espero que isto se possa modificar.

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