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Traçar caminho fora de Macau

Yang Sio Maan é a segunda ilustradora de Macau selecionada para a Bologna Illustrators Exhibition, considerada os “Óscares da Ilustração”. Para a artista, o reconhecimento internacional é decisivo: “Quando queremos expandir para fora de Macau, precisamos de prémios”

Inês Lei

A distinção representa, para a artista, um objetivo antigo: “Porque conheço esta feira desde os tempos de estudante e sempre sonhei que um dia pudesse ser selecionada – seria um grande reconhecimento.” Mas o impacto vai além da validação artística.

Yang vê a presença em Bolonha como “uma oportunidade para entrar na área”, sobretudo junto de editoras internacionais, “para que o meu trabalho possa ser visto por pessoas fora de Macau. Quando queremos expandir para fora de Macau, precisamos de prémios”, diz ao PLATAFORMA.

O interesse pela ilustração surgiu durante a universidade, quando estudava Língua Inglesa. Numa disciplina de Literatura Infantil, teve como trabalho final “criar um livro ilustrado”. O projeto foi desenvolvido em grupo, mas ficou responsável pela componente visual. “Como era a que desenhava melhor entre os três, fiquei responsável pelas ilustrações”.

Hoje admite que “os desenhos dessa altura eram bastante imaturos”, mas identifica esse momento como decisivo: “Despertou o desejo de desenhar, ou de me tornar contadora de histórias e autora”.

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Yang começou a explorar a ilustração numa altura em que o setor tinha pouca visibilidade em Macau. “Era preciso recorrer muito à imaginação para pensar sobre este tema, aprender através da informação disponível online e explorar as possibilidades. Acho que essa era a parte mais difícil”.

Sem referências próximas ou uma comunidade estabelecida, descreve o percurso como um processo de tentativa e erro: “É como se muitas coisas dependessem dos pioneiros, que têm de experimentar e ajustar sozinhos o seu caminho”.

No contexto de Macau, quando se criam livros ilustrados ou se publica, continua a haver esta sensação – há relativamente poucas pessoas ou referências – Yang Sio Maan, ilustradora

Apesar de reconhecer que hoje existem mais ilustradores e maior circulação de informação, considera que o meio local continua limitado. “Embora haja mais pessoas à minha volta a trabalhar em ilustração, ou seja possível acompanhar experiências de outros nas redes sociais, no contexto de Macau, quando se criam livros ilustrados ou se publica, continua a haver esta sensação – há relativamente poucas pessoas ou referências”.

O mestrado realizado no Reino Unido teve um papel importante na consolidação do seu processo criativo: “Ensinou-me como um criador pode trabalhar ou pensar quando explora um tema”, ajudando-a a perceber “como construir uma base sólida para o trabalho e tornar o processo criativo mais coerente”.

Em 2019, venceu o Emerging Artist Award, na categoria de Publicidade, dos AOI World Illustration Awards. O prémio funcionou como validação profissional. “Embora me apresente como ilustradora, a quantidade de trabalho que recebo em Macau torna difícil sentir verdadeiramente que ‘sou ilustradora’, por isso ganhar este prémio deu-me a sensação de que ‘sou mesmo ilustradora’”.

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A partir daí, começou a receber propostas de trabalho fora de Macau e ganhou confiança para tentar trabalhar a tempo inteiro na área. “Na altura, embora o rendimento pudesse não ser suficiente para me sustentar imediatamente, sentia-me definitivamente mais confiante.”

Sobre o próprio processo criativo, Yang descreve-o como “uma sensação de fermentação”. Recolhe imagens, cenas e fragmentos do quotidiano, faz esboços e deixa as ideias amadurecerem antes de organizar referências e experimentar materiais.

“O mercado aqui praticamente não existe”

As limitações do setor continuam, no entanto, a ser evidentes. “O mercado aqui praticamente não existe”, afirma ao PLATAFORMA. Muitos clientes “não compreendem” o papel da ilustração ou a necessidade de contratar ilustradores. Também as questões ligadas aos direitos de autor permanecem frágeis. “Enquanto ilustradora, deparamo-nos com questões de direitos de autor e não sabemos a quem recorrer para pedir ajuda”.

A artista considera que Hong Kong e Macau tendem a olhar para a ilustração sobretudo como propriedade intelectual comercial, ao contrário de outros contextos internacionais, “que veem o potencial de desenvolvimento artístico da ilustração, o que pode limitar a sua aplicação e imaginação”.

Embora me apresente como ilustradora, a quantidade de trabalho que recebo em Macau torna difícil sentir verdadeiramente que ‘sou ilustradora’ – Yang Sio Maan, ilustradora

Recentemente, colaborou com a “Myland Culture” na criação de uma miniatura para o Red Market Art & Cultural Festival, inspirado no Mercado Vermelho. Durante o processo de recolha de histórias e esboços, ficou particularmente marcada pelos testemunhos de pessoas da sua geração. “Alguns entrevistados, da minha geração, diziam que tinham medo do mercado quando eram pequenos, por causa dos cheiros, das galinhas vivas e do marisco, e isso ressoou profundamente comigo”.

Ao mesmo tempo, sentiu entre vendedores e trabalhadores uma percepção de declínio do espaço. “Como se houvesse uma atmosfera de pôr-do-sol no mercado”. Para Yang, esse desaparecimento gradual também faz parte da motivação para desenhar e registar determinados lugares. “Quando entrevistamos pessoas e percebemos que toda a gente quer proteger alguma coisa, e essas são as cenas que queremos registar, mas sabemos que estão a desaparecer”.

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