No artigo anterior, usei Cabo Verde para frisar que a plataforma sino-lusófona não deve ser subestimada. Hoje, falo de outro espelho: Singapura.
A 15 de junho, a Autoridade Monetária de Singapura (MAS) anunciou uma grande reforma: simplificou a criação de family offices (escritórios familiares), trocando a aprovação caso a caso por uma “isenção por categoria”. Cumpridos os requisitos, basta notificar a MAS e abrir conta bancária para operar. A aprovação caiu de mais de um ano para menos de três meses.
Porquê? Porque Hong Kong (HK) está a recuperar terreno.
Lembram-se da polémica do “Príncipe do Dubai” há dois anos? Alguém que se dizia da realeza anunciou um family office em HK, mas a imprensa duvidou, gerando um escândalo que deu em nada. Muitos disseram que HK “estragou tudo”.
Porém, os dados mostram o contrário. Segundo a Deloitte, no final do ano passado, HK tinha 3.384 family offices únicos, mais 25% face a 2023. Empregam mais de 10 mil profissionais e geram 12,6 mil milhões de HKD anuais. Um desastre de relações públicas não impediu o capital de fluir.
O que HK fez bem? Limiares claros, benefícios fiscais diretos, isenção de aprovação prévia e o apoio do mercado do Interior da China. São vantagens institucionais que não se replicam apenas com a organização de eventos.
Singapura notou a tendência e lançou o novo quadro em 45 dias. O seu Conselho de Desenvolvimento Económico não espera pelas empresas; age proativamente: estuda clientes, desenha planos de atração e faz lobbying global. É uma ação de Estado institucionalizada.
Isto distingue uma “resposta de eventos” de uma “resposta institucional”. A primeira usa fóruns, comunicados e visitas. A segunda revê leis, simplifica processos e cria mecanismos duradouros. Uma é fogo de artifício; a outra, infraestrutura. O duelo entre Singapura e HK joga-se nas instituições.
E Macau? O porto franco, a ausência de controlo cambial e a cidade aduaneira independente são vantagens institucionais reais. Mas, perante oportunidades ou forte concorrência, teremos a capacidade e rapidez para ajustar o nosso sistema?
É um espelho. Singapura e HK provam que o sistema é uma vantagem competitiva, mas só se for gerido a sério.