É impossível não falar sobre a participação de Cabo Verde no Campeonato Mundial de Futebol 2026. Três empates na fase de grupos – contra a Espanha campeã europeia e do mundo, o bicampeão mundial Uruguai e a tricampeã asiática Arábia Saudita – e uma eliminação épica nos dezasseis avos-de-final, caindo de pé, no prolongamento, depois de marcar dois golos à atual campeã do mundo, a Argentina. Uma campanha soberba que ecoou pelo mundo inteiro.
Esta presença não foi um acaso. Foi o fruto de um trabalho consistente dos últimos 30 anos: na formação – com novas escolas de futebol, novas e renovadas infraestruturas desportivas por todo o território, uma excelente organização e de uma prospeção cada vez mais eficaz de talentos entre os filhos da diáspora, que hoje abraçam a seleção com vontade, carácter, orgulho e raça.
O regresso, pós eliminação, dos Tubarões Azuis aconteceu no dia em que Cabo Verde comemorava 51 anos de independência. A coincidência é carregada de simbolismo: uma nação que nasceu a afirmar a sua soberania celebra, nesse mesmo 5 de julho, os filhos que foram ao mundo provar que essa soberania tem alma e talento.
A visibilidade conquistada tem uma dimensão que merece ser sublinhada. O Brasil e a China – dois gigantes populacionais e parceiros históricos – foram os grandes amplificadores desta projeção.
A isto soma-se a feliz coincidência de os Estados Unidos serem um dos países organizadores, precisamente onde vive a maior comunidade cabo-verdiana na diáspora. Há precedentes encorajadores: a Islândia, após o Euro 2016, registou um aumento de 40% no turismo nos anos seguintes; o Marrocos, depois do Mundial 2022, viu a procura turística disparar. Cabo Verde tem agora a mesma oportunidade.
A pergunta que se impõe: como transformar esta visibilidade em desenvolvimento? O novo Governo, com a agenda “Cabo Verde Para Todos”, assume funções num momento propício. Transformar essa projeção em resultados – no turismo, na economia azul, na economia digital, nas energias renováveis e na atração de investimento – é o grande desafio desta legislatura.
Do lado da China, a oportunidade nos parece clara. O maior emissor de turistas do mundo e um dos maiores investidores diretos estrangeiros em África descobriu Cabo Verde através do futebol. Mas a cooperação vai além: a economia digital, as oportunidades de negócio bilaterais, a formação de quadros, infraestruturas e as energias renováveis são domínios onde a parceria pode dar novos passos concretos. Parece que já não precisamos de explicar onde fica Cabo Verde. Precisamos de mostrar o que Cabo Verde pode ser. E este é, talvez, o melhor momento da nossa história para o fazer.