Os “Vestígios da Indústria da Porcelana Artesanal de Jingdezhen” são constituídos por 5 componentes, abrangendo 15 grupos de elementos patrimoniais, incluindo locais de fornos, minas de pedra para porcelana, locais de transformação e redes de transporte terrestre e aquático, num total de 45 locais patrimoniais. A área do bem abrange 1 979 hectares, com uma zona tampão de 5 545,7 hectares, perfazendo um total de 7 524,7 hectares.
Estes vestígios representam o sistema da indústria artesanal de porcelana de Jingdezhen, entre os séculos X e XIX, testemunhando o profundo impacto da China no desenvolvimento da indústria mundial da porcelana e no intercâmbio mútuo entre civilizações. Nesta história de expansão global, Macau desempenhou um papel fundamental.
Zhao Qiang, especialista em património de Macau, salientou: “Enquanto centro de comércio externo que ligava o sistema de produção do interior da China às rotas marítimas globais nos séculos XVI e XVII, Macau constitui o indispensável “código da Rota Marítima da Seda” e uma testemunha histórica para interpretar o valor de Património Mundial de Jingdezhen e destacar a difusão global da porcelana chinesa.”

Conhecida como a “Capital da Porcelana do Milénio”, Jingdezhen situa-se na província de Jiangxi, no sudeste da China. Embora seja uma província do interior, faz fronteira com províncias costeiras como Zhejiang e Fujian a leste e com Guangdong a sul.
Já em meados do século XVI, havia registos de comerciantes portugueses que encomendavam porcelana da China. Depois dos portugueses terem recebido autorização para se estabelecerem em Macau, em 1557, a cidade transformou-se rapidamente no mais importante porto internacional de trânsito de comércio livre da costa sul da China.
Desde então, o comércio de porcelana encomendada à medida proveniente da China tornou-se habitual, e a variedade, a quantidade e a escala da cerâmica chinesa exportada para a Europa cresceram exponencialmente. Os agentes comerciais europeus e os missionários em Macau apresentavam pedidos relativos a formas, padrões e funções específicas, que eram transmitidos a Jingdezhen através das redes de comerciantes chineses, o que acabou por conduzir ao nascimento da “porcelana Kraak”.
A porcelana Kraak é um tipo de porcelana azul e branca destinada à exportação, produzida durante a dinastia Ming. O termo “Kraak” tem origem na designação europeia, nos séculos XVI e XVII, para as carracas portuguesas (navios mercantes armados). No início do século XVII, os holandeses capturaram um navio Kraak português no Estreito de Malaca, o que causou grande sensação. O nome “porcelana Kraak”, proveniente do leilão que se seguiu, tornou-se mundialmente conhecido.

O Museu de Macau exibe porcelana Kraak da dinastia Ming.
Entretanto, os produtos de Jingdezhen foram integrados na cadeia de abastecimento global através de Macau, sendo exportados não só para Portugal e os Países Baixos, mas também para países tão distantes como a Espanha, a Grã-Bretanha e outras nações europeias, bem como para as colónias americanas.
O fluxo contínuo de porcelana de Jingdezhen para a Europa, através de Macau, inspirou inovações europeias — tais como o avanço da fábrica alemã de Meissen na tecnologia da porcelana de pasta dura a alta temperatura —, tornando Macau uma verdadeira fronteira para a integração da tecnologia e da arte chinesas e ocidentais.
Esta evolução atingiu o seu auge no século XVII. Os oleiros portugueses recorreram amplamente à decoração em azul, inspirando-se no estilo da porcelana chinesa “Kraak” e procurando reproduzir temas orientais característicos, tais como paisagens e figuras, pavilhões e terraços, bem como a flora e a fauna.
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Estes elementos culturais chineses de destaque influenciaram profundamente os gostos estéticos da indústria cerâmica portuguesa. No início do século XVIII, o icónico esquema de cores azul e branco da porcelana chinesa azul e branca passou a ser amplamente aplicado aos motivos decorativos dos azulejos portugueses (ladrilhos de cerâmica pintados) e estendeu-se ao domínio da cerâmica arquitetónica.
Os países europeus mostraram-se entusiasmados com a incorporação de estilos artísticos chineses na sua produção cerâmica, enquanto a produção cerâmica chinesa, por sua vez, introduziu inovações adaptativas em resposta às exigências do mercado europeu.
Entre os séculos XVII e XIX, a produção de porcelana europeia por encomenda atingiu o seu apogeu, e os artesãos chineses começaram a integrar a sua própria visão do Ocidente na pintura das peças destinadas à exportação. Durante este período, tanto as formas estruturais como os detalhes decorativos da porcelana demonstraram uma integração harmoniosa e um brilho mútuo entre as culturas chinesa e ocidental.
A candidatura bem-sucedida de Jingdezhen ao Património Mundial preencheu uma lacuna no que diz respeito ao tema da “porcelana” na Lista do Património Mundial. Além disso, os laços culturais forjados entre Jingdezhen, Macau e Lisboa através da porcelana azul e branca e dos azulejos constituem testemunhos vívidos da Rota Marítima da Seda. Uma única peça de porcelana liga três cidades; o azul e branco reflete tanto o Oriente como o Ocidente. Este diálogo entre civilizações, que se estende por 500 anos e liga três continentes, continua a perdurar até aos dias de hoje.