Cientistas vão aproveitar o eclipse solar total desta quarta-feira (12) como uma oportunidade rara para compreender melhor a natureza turbulenta e imprevisível da nossa estrela.
Quando a Lua ocultar o Sol a 12 de agosto, equipas de investigadores vão estudar o seu campo magnético, a atmosfera e o clima extremo, que por vezes provoca perturbações na Terra.
Existe uma longa tradição de utilização dos eclipses para alcançar avanços científicos. Foi durante a observação de um eclipse, a 29 de maio de 1919, na ilha do Príncipe, ao largo da costa ocidental de África, que o astrónomo britânico Arthur Eddington confirmou a teoria da relatividade de Albert Einstein.
Eddington observou o desvio da luz, um fenómeno conhecido como lente gravitacional, nas estrelas que se tornaram visíveis quando o brilho intenso do Sol foi ocultado.
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Mais de um século depois, os cientistas vão acompanhar um eclipse solar total com a duração de um minuto e 40 segundos, que poderá ser observado numa faixa do norte de Espanha.
“O nosso trabalho procura compreender os mecanismos físicos que estão por detrás da atividade do Sol”, disse à AFP Allan Sacha Brun, astrofísico da Comissão Francesa de Energias Atómicas (CEA).
Todos os dias, os especialistas desenvolvem modelos para explicar a atividade solar, permitindo “situar o Sol no seu contexto dentro da sua linha evolutiva, desde o nascimento até à morte”, acrescentou.
‘Temos uma sorte incrível’
O Sol expele continuamente matéria e partículas carregadas, provocando por vezes verdadeiras tempestades solares que lançam enormes explosões de plasma e outros materiais.
Quando esse material atinge o escudo magnético da Terra, pode desativar satélites, colocar astronautas em risco e criar auroras coloridas nos céus das regiões de elevadas latitudes, tanto no hemisfério norte como no sul.
“Estes fenómenos seguem um ciclo regular, que atinge o seu pico a cada 11 anos”, explicou Brun. “Em 2024, o Sol atingiu o pico do seu 25.º ciclo.”
Os cientistas da CEA vão concentrar os seus estudos na coroa solar, a camada mais externa da atmosfera do Sol. “Temos uma sorte incrível: a Lua é 400 vezes mais pequena do que o Sol, mas também está 400 vezes mais próxima de nós”, afirmou Brun.
Esta coincidência faz com que a Lua bloqueie a luz do Sol, permitindo ainda assim aos cientistas observar o que acontece na sua atmosfera.
A coroa solar estende-se por 10 milhões de quilómetros e é um milhão de vezes menos brilhante do que a superfície do Sol, denominada fotosfera. Ainda assim, a coroa pode atingir temperaturas de até dois milhões de graus Celsius.
Em condições normais, quando não há um eclipse, os cientistas estudam a atmosfera solar com satélites equipados com um coronógrafo – “um filtro que bloqueia a fotosfera”, explicou Brun.
Mas os eclipses totais permitem também uma rara observação da cromosfera, a camada da atmosfera situada entre a coroa e a superfície do Sol.
‘Inspirador’
Cientistas da Agência Espacial Europeia (ESA) vão analisar o eclipse na esperança de obter mais informações sobre os ventos solares.
“Por que razão as tempestades solares se propagam desta forma? Qual é a sua estrutura? E podemos desenvolver modelos que nos permitam prevê-las?”, questionou Carole Mundell, diretora de Ciência da ESA. A sonda Solar Orbiter, da ESA, lançada em 2020, tem recolhido dados sobre a atmosfera e os ventos solares.
Os eclipses representam uma oportunidade para “testar quão bons – ou quão maus – são os nossos modelos”, afirmou Miho Janvier, coprincipal investigadora da missão.
Outra missão da ESA, denominada Proba-3, utiliza atualmente três naves espaciais que voam em formação sincronizada para criar os seus próprios mini-eclipses solares.
Existem também planos para uma missão denominada MESOM, que pretende enviar uma nave espacial para a sombra da Lua, de forma a obter uma observação muito mais prolongada deste fenómeno.
Lucie Green, física solar da University College London e membro da missão, afirmou à AFP que os eclipses solares totais são “inspiradores para todos, artistas e cientistas igualmente”. “O que observamos na Terra inspira aquilo que queremos fazer na nossa investigação em ciência espacial”, acrescentou.