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Macau: “O património sem as pessoas não tem valor”

Depois da estreia com lotação esgotada e de uma distinção internacional na Tailândia, “Heritople” regressou esta semana ao ecrã local. O realizador António Sanmarful sublinha que o documentário foi pensado para Macau e para as pessoas que dão sentido ao património da cidade

Fernando M. Ferreira

“O público é essencial no ciclo de uma obra audiovisual. É para o público que fiz o documentário e, quanto mais pessoas o virem, melhor”, afirma ao PLATAFORMA. Sanmarful agradece à Fundação Rui Cunha a oportunidade de voltar a mostrar o filme e lembra que Macau continua a ser o lugar onde a obra “faz mais sentido”, por ter sido criada a pensar nos habitantes da cidade.

Com cerca de uma hora, o documentário cruza imagens de arquivo da transferência de soberania, em 1999, com os testemunhos de oito residentes, entre os quais Ip Tat, presidente da Associação do Templo de Na Tcha, e Elisabela Larrea, presidente da Associação de Investigação da Cultura Macaense.

Falado em três línguas, “Heritople” procura retratar uma cidade formada por diferentes comunidades, memórias e tradições. O título junta as palavras inglesas “heritage” e “people” – património e pessoas -, ideia que estrutura toda a narrativa.

Sanmarful recupera uma definição do crítico Roger Ebert, para quem os filmes são “máquinas de criar empatia”. Foi com esse princípio, explica, que procurou aproximar comunidades que, apesar das diferenças culturais e das dificuldades de comunicação, partilham “os mesmos anseios em relação à cidade, ao património e ao futuro”.

“Todos queremos o melhor para Macau”, sustenta. O realizador quis também mostrar que “o património sem as pessoas não tem valor”: sem as histórias de quem o vive, restariam apenas “pedras, papéis e sons esquecidos”. Por isso, os testemunhos funcionam como fio condutor do documentário.

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Produzido pelo Instituto Internacional de Macau, “Heritople” exigiu várias semanas de filmagens e cerca de 200 horas de edição. Em dezembro, foi distinguido como melhor documentário nos Bangkok Movie Awards, reconhecimento que ajudou a divulgar a obra fora da cidade.

Ainda assim, Sanmarful admite que o filme “não foi feito para um público estrangeiro” e exige um conhecimento profundo do contexto local, o que poderá explicar a recepção mais limitada em alguns festivais. Apesar disso, já foi exibido em Macau, Portugal, França, Tailândia e Hong Kong, “sempre com boa receção da audiência”.

Um ano depois da estreia, o realizador diz não interpretar de forma diferente os testemunhos recolhidos. Define-se, nesse processo, como “mais um taxista do que um realizador”: transportou para o filme os sentimentos dos entrevistados, procurando não alterar o que expressaram.

Reconhece, porém, que Macau mudou e que, se repetisse hoje as entrevistas, provavelmente obteria respostas diferentes. “Nós, tal como a cultura, estamos em constante mudança”.

Sanmarful trabalha agora num novo documentário, cuja conclusão está prevista para finais de 2027. Terminou também uma curta-metragem em cantonês, atualmente em competição em festivais, e procura financiamento para outra curta a filmar ainda este ano. “Todos os projetos continuam ligados a Macau”, conclui.

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