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Patuá para todos

Investigadora, cineasta e cofundadora da Associação de Investigação da Cultura Macaense, Elisabela Larrea dedica-se há duas décadas à preservação e divulgação deste património. “Uma cultura deve ser amada e partilhada com todos os que nela estejam interessados”, defende, sublinhando que o patuá não deve ficar confinado à comunidade macaense, mas chegar às novas gerações e a públicos de diferentes origens

Fernando M. Ferreira

– O que a levou a dedicar-se ao estudo, preservação e divulgação da cultura macaense, e como evoluiu essa ligação ao longo dos anos?

Elisabela Larrea – Tive a sorte de contar com vários mentores que moldaram a minha dedicação à preservação da cultura macaense. O meu avô, Vicente Eusébio, foi quem primeiro despertou em mim o gosto pela leitura e pelas histórias de Macau. Gostava também de registar conhecimentos e de conservar os arquivos familiares, através dos quais aprendi, desde cedo, a importância da documentação em qualquer área. Em 1994, deparei-me com um artigo de Cecília Jorge sobre o teatro em patuá, intitulado “Récita e Língu Maquista” – um texto que guardei, sem saber porquê, durante três décadas e que hoje sinto ter sido um chamamento que ainda não reconhecia.

Em 2000, a minha mãe, Laura Eusébio, levou-me pela primeira vez a assistir a uma representação dos Dóci Papiaçám di Macau. Insistiu que eu devia vê-la, dizendo que o patuá era a nossa língua — uma língua que tinha sido deixada de lado por uma questão de sobrevivência, mas que agora nos cabia recuperar. As suas palavras ficaram comigo. Passei a assistir todos os anos e, em 2006, decidi participar na primeira edição do Local View Power 2007, no âmbito da qual realizei o meu primeiro documentário, “Filhos da Terra”, com a esperança de servir de megafone para ajudar a divulgar e preservar a cultura macaense. Foi durante a produção do documentário que me juntei ao grupo como voluntária nos bastidores, na sequência de um convite de Isa Manhão.

À medida que o meu interesse pelos estudos culturais se aprofundava, comecei a compreender que a importância do teatro em patuá ultrapassava a própria comunidade, integrando-se na história mais ampla de Macau. Perante a quase inexistência de estudos académicos sobre o tema, consultei o meu mentor, Timothy A. Simpson, e iniciei a investigação de doutoramento em 2011.

Depressa percebi que precisava de aprender o próprio patuá para poder analisar o seu contexto e as mensagens transmitidas. Mergulhei, por isso, na obra de Adé e nas gravações das peças de teatro. Apesar de alguns problemas de saúde terem atrasado a investigação, recebi um enorme apoio dos Dóci Papiaçám di Macau e de muitos dos entrevistados, conseguindo finalmente concluir o trabalho ao fim de uma década. Atualmente, estou a escrever um livro sobre o teatro em patuá, com o incentivo de Miguel de Senna Fernandes e do Instituto Cultural.

Em 2022, cofundei a Associação de Investigação da Cultura Macaense, a MACRA, juntamente com outros interessados nesta área. Se a saúde o permitir, espero continuar a colaborar com diferentes sectores em iniciativas de preservação cultural.

Acredito que as culturas evoluem. Foi precisamente devido à mistura de línguas, tradições e influências que a cultura macaense passou a existir

– Na sua investigação sobre o teatro em patuá, que conclusões retirou sobre o papel desta expressão artística na construção e continuidade da identidade macaense?

E.L. – Defendi que o teatro em patuá começou por ser um teatro comunitário, proporcionando aos macaenses um ‘terceiro espaço’ onde podiam exprimir livremente as suas opiniões na sua própria língua – então desvalorizada e considerada uma ‘língua corrompida’. À medida que o patuá foi desaparecendo do uso quotidiano, adquiriu uma nova existência. Sustentei que passou de língua doméstica a língua de representação, não apenas por ser a principal língua utilizada no teatro em patuá, mas também porque a identidade macaense passou a ser ‘representada’ através da introdução ocasional de palavras em patuá nas conversas.

Leia também: China valoriza teatro em patuá

O teatro em patuá desempenha múltiplas funções, sendo a preservação da língua a mais importante. Embora a literatura e as canções também contribuam para essa preservação, o teatro revitaliza-a de uma forma única, através do diálogo ao vivo e da interação com o público. O grupo tem recrutado atores mais jovens, assegurando a transmissão entre gerações, e tem enriquecido o vocabulário do patuá, adaptando-o aos tempos contemporâneos. Tem também incorporado curtas-metragens, de modo a alargar o seu alcance.

A língua e o espírito comunitário do grupo reforçam a identidade macaense de uma forma que nenhuma outra expressão artística consegue igualar. Em 2021, o teatro em patuá foi inscrito na Lista Nacional do Património Cultural Imaterial da China, despertando um interesse crescente por parte de escolas, comunidades e investigadores internacionais. Desde então, tenho recebido pedidos de entrevista provenientes dos quatro cantos do mundo.

Embora tenha sido outrora abandonado e desvalorizado, o patuá é hoje apreciado e estimado. Tenho acompanhado esforços de revitalização não apenas entre macaenses, mas também por parte de grupos de diferentes culturas em todo o mundo, sendo que a maioria dos participantes se encontra na casa dos 20 anos. Sem o teatro em patuá, acredito que nada disto teria sido possível.

– Quais são hoje os principais obstáculos à transmissão da cultura macaense às gerações mais jovens, tanto em Macau como entre as comunidades da diáspora?

E. L. – Penso que um dos obstáculos enfrentados por qualquer grupo cultural no mundo é o afastamento entre gerações, num contexto em que os mais jovens dão prioridade às inovações digitais e à cultura popular global.

É, por isso, nossa responsabilidade procurar comunicar de uma forma que desperte o interesse das gerações mais jovens, utilizando os seus modos de comunicação e incorporando aquilo que está na moda entre elas.

A MACRA tem procurado fazê-lo através de vídeos informativos, como o “MACRA Express”, e do “MACRA Podcast”, onde partilhamos conteúdos relacionados com a cultura macaense num formato mais informal e conversado.

A ideia passa também por quebrar as barreiras que separam os grupos culturais e as fronteiras geográficas. Os nossos conteúdos são trilingues e procuramos não dar prioridade a uma única língua, mostrando antes o multilinguismo e o ‘estilo’ multicultural que possuímos. Esperamos que, com o tempo, consigamos despertar um maior interesse entre as gerações mais jovens e também entre as comunidades da diáspora.

– A cultura macaense resulta do encontro entre diferentes línguas, tradições e referências. Como pode essa natureza híbrida ser preservada sem transformar a cultura numa realidade estática ou meramente folclórica?

E.L. – Acredito que as culturas evoluem. Foi precisamente devido à mistura de línguas, tradições e influências que a cultura macaense passou a existir. Não vejo a cultura macaense como algo fixo ou imutável. Ao longo da sua evolução, nunca foi fixa nem permaneceu inalterada.

Veja-se o exemplo do patuá. Foi, em tempos, utilizado pelos macaenses como língua quotidiana no ambiente familiar. Depois, atravessou um período de declínio. Atualmente, tornou-se uma língua de representação, e o interesse e a paixão que desperta já não se limitam à comunidade macaense, tendo ultrapassado fronteiras e chegado a outros grupos culturais.

Outro exemplo é a gastronomia macaense. Em tempos, estava limitada às famílias macaenses. Hoje, vemos chás gordos macaenses abertos ao público e projetos de gastronomia macaense apreciados não só pelos macaenses, mas também por outras comunidades culturais.

Não concordo que se tenha transformado num espetáculo para turistas, porque continua a existir dentro das famílias macaenses. Além disso, há pessoas não macaenses que não são apenas observadoras ou espectadoras da nossa cultura: mergulharam nela, aprenderam a amá-la e trabalham também para a sua preservação.

– Tem recorrido à escrita, ao cinema, à fotografia, às instalações audiovisuais e às plataformas digitais. Que meios considera mais eficazes para aproximar novos públicos da cultura macaense?

E. L. – Temos de trabalhar em todas as direções e através de diferentes meios, porque cada meio chega a pessoas distintas. Foi por isso que nunca me limitei a trabalhar através de uma única plataforma.

O cinema tem um encanto e um impacto próprios, proporcionando uma experiência única. A escrita possui também a sua força e, no meio académico, é o formato com maior autoridade, porque cria registos permanentes que podem ser citados, verificados e preservados ao longo do tempo.

A fotografia e as instalações audiovisuais estimulam o pensamento analítico e levam as pessoas a refletir mais profundamente sobre aquilo que a cultura macaense realmente significa, para além da sua aparência superficial.

As plataformas digitais permitem alcançar um público mais vasto e possibilitam que as pessoas interajam com a cultura. Em vez de se limitarem a assistir à margem, podem fazer perguntas, partilhar os seus próprios pontos de vista e passar a fazer parte da conversa.

O teatro em patuá desempenha múltiplas funções, sendo a preservação da língua a mais importante. Embora a literatura e as canções também contribuam para essa preservação, o teatro revitaliza-a de uma forma única, através do diálogo ao vivo e da interação com o público

– O projeto Unchinho di Língu Maquista apresenta o patuá através de cartões trilingues e conteúdos sonoros. Que impacto teve esta iniciativa e que potencial vê nas ferramentas digitais para o ensino e a divulgação da língua?

E. L. – Aprendi patuá mergulhando nas obras literárias de Adé e vendo vídeos de teatro em patuá. Embora este método tenha funcionado comigo, não foi um caminho fácil.

Para proporcionar uma forma acessível de aprendizagem desta doce língua a todos os interessados, decidi criar cartões didáticos em patuá e partilhá-los na Internet. A apresentação dos cartões em três línguas permitiu que qualquer pessoa pudesse aprender, sem limitações geográficas ou outras restrições.

Além dos cartões, criei vídeos curtos com explicações e guias de pronúncia. Penso que isto teve o efeito de fazer com que o patuá deixasse de ser aprendido apenas entre os macaenses, passando também a ser estudado por pessoas não macaenses.

A cultura macaense faz parte da cultura de Macau e o patuá é uma componente importante da cultura macaense. Por isso, acredito que deve ser apreciado por qualquer pessoa interessada em conhecê-lo. Tal como aprendi as canções narrativas chinesas de Macau, acredito que outras pessoas também podem aprender patuá.

Leia também: Teatro em patuá e tradições religiosas entre os primeiros patrimónios vivos oficialmente reconhecidos em Macau

Em 2019, criei uma página chamada Macanese Culture for Everyone, uma extensão do Belamaquista, porque acredito firmemente que uma cultura deve ser amada e partilhada com todos os que nela estejam interessados.

Ao partilharmos culturas, evitamos estereótipos e mal-entendidos. As nossas narrativas impedem representações e interpretações erradas. Podemos até criar alianças em projetos de preservação.

Depois da publicação do segundo livro, Patuá for Everyone – A Self-Study Guide, percebi que os macaenses das gerações mais velhas estavam desejosos de utilizar esta ferramenta para transmitir o conhecimento aos seus descendentes. As pessoas não macaenses passaram também a dispor, finalmente, de uma forma orientada de aprender a língua.

A minha principal motivação ao partilhar o patuá não era apenas divulgá-lo como língua, mas utilizá-lo como instrumento para que outras pessoas compreendessem e apreciassem a beleza da cultura e da comunidade macaenses.

– Que medidas deveriam ser adoptadas pelas instituições públicas, escolas e associações locais para assegurar que a cultura macaense continua a ser conhecida, praticada e transmitida?

E. L. – Tenho participado em várias atividades extracurriculares organizadas por escolas e universidades, incluindo seminários e oficinas sobre teatro em patuá. A maioria destas sessões dura entre 15 minutos e duas horas.

Embora proporcionem aos estudantes um ponto de contato útil – uma breve amostra da cultura -, apenas conseguem abordar a superfície. O património macaense é demasiado rico e complexo para poder ser transmitido de forma significativa numa palestra de duas horas.

Outro desafio é a disponibilidade limitada dos membros da comunidade macaense para dinamizarem estas sessões durante o horário escolar.

Perante esta situação, acredito que seria muito benéfico desenvolver um programa estruturado de formação para professores. Esse programa poderia reunir associações culturais, especialistas nas diferentes matérias e académicos para conceberem, em conjunto, recursos educativos abrangentes sobre a cultura macaense.

Com formação e apoio adequados, os professores ficariam preparados para integrar estes conhecimentos nos seus próprios programas curriculares e transmiti-los aos alunos de uma forma continuada e refletida.

A longo prazo, considero esta uma abordagem viável e susceptível de ser aplicada em maior escala, porque cria capacidade institucional, em vez de depender exclusivamente da disponibilidade ocasional de voluntários da comunidade.

Ao integrarmos a cultura macaense na formação dos professores e, posteriormente, na aprendizagem em sala de aula, podemos promover uma maior consciência e compreensão entre as gerações futuras.

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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