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Semear consciência ambiental em Macau

A plantação de mangais durante a 45.a Semana Verde pretende deixar uma marca que vai muito além das árvores colocadas no solo. “Espero que o impacto dure muito para além dos mangais plantados”, afirma Karen Araño Tagulao, diretora do Departamento de Ciência e Ambiente da Universidade de São José (USJ). O objetivo, explica, é que os participantes saiam da iniciativa “com uma ligação mais forte à natureza e um maior sentido de responsabilidade pela sua proteção”

Diogo Pereira

“Pela nossa experiência com escolas e com a comunidade, diria que a consciência ambiental é geralmente bastante elevada”, afirma ao PLATAFORMA Karen Tagulao. Estudos conduzidos pela universidade junto de estudantes locais apontam igualmente para “um elevado nível de consciência ambiental entre as gerações mais jovens”, embora ressalve que “ainda há margem para transformar essa consciência em mudanças de comportamento a longo prazo”.

A investigadora recorda que, quando iniciou o estudo dos mangais há cerca de 15 anos, “poucas pessoas conheciam estas plantas tão importantes”. Hoje, diz, a realidade é diferente: “Cada vez mais pessoas têm consciência da sua importância e temos verificado uma participação crescente nos eventos ambientais”.

Para Karen Tagulao, atividades práticas como a plantação de mangais desempenham um papel decisivo nesse processo. “Não só refletem o crescente interesse do público pela conservação ambiental, como também o reforçam”, explica. Muitos participantes terminam a experiência “com uma maior apreciação da importância da natureza e uma melhor compreensão do valor ecológico dos ecossistemas de mangal”.

Uma cidade à descoberta da natureza

Numa região marcada pela elevada densidade urbana, o maior obstáculo continua a ser a distância física entre as pessoas e os espaços naturais. “Muitos residentes continuam sem saber que Macau possui habitats naturais ricos e valiosos”, diz. Por isso, defende que é necessário criar mais oportunidades para explorar esses locais. “As pessoas aprendem muito mais quando vivem a natureza do que quando apenas leem sobre ela”.

A colaboração entre a USJ e o Instituto para os Assuntos Municipais (IAM), que já dura há mais de cinco anos no âmbito da Semana Verde, procura precisamente criar essa ligação. Este ano, a universidade apresentou demonstrações interativas de ferramentas de monitorização da biodiversidade e uma nova série de personagens inspiradas nas espécies de mangal existentes em Macau.

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“Esperamos tornar o conhecimento científico mais acessível e incentivar uma maior valorização do ambiente natural de Macau”, diz Karen Tagulao ao PLATAFORMA.

O objetivo, acrescenta, vai muito além da plantação de árvores: “Espero que o impacto dure muito para além dos mangais plantados. Se os participantes saírem daqui com uma ligação mais forte à natureza e um maior sentido de responsabilidade pela sua proteção, então a iniciativa terá alcançado um impacto significativo para as gerações atuais e futuras”.

Mais do que ações simbólicas

A ideia de que a consciência ambiental se constrói através da experiência foi também partilhada pelos estudantes que participaram na plantação de mangais.

Darwi Htoo, aluno da licenciatura em Ciências Ambientais, reconhece que a plantação foi exigente, mas também reveladora. “Macau é uma cidade muito urbanizada, com poucos espaços verdes. Faz sentido plantar mangais todos os anos”, afirma, lembrando que estas plantas desempenham funções como o “sequestro de carbono” e a “preservação dos ecossistemas”.

O estudante considera que a proteção ambiental só produzirá resultados com o envolvimento da sociedade: “Se o público não desenvolver hábitos ecológicos adequados, todas estas atividades serão apenas greenwashing (prática em que empresas ou instituições usam o ‘marketing’ para promover uma falsa imagem de responsabilidade ambiental)”. Como exemplo, aponta que “a taxa de reciclagem dos resíduos sólidos em Macau ronda apenas os 21%”.

As pessoas aprendem muito mais quando vivem a natureza do que quando apenas leem sobre ela – Karen Araño Tagulao, diretora do Departamento de Ciência e Ambiente da USJ

Darwi alerta ainda para desafios já sentidos na região: “O efeito de ilha de calor urbana está a intensificar-se e os tufões são mais frequentes devido ao aquecimento global. Macau deve adotar práticas ecológicas básicas para reduzir a sua pegada de carbono”.

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Também Wilson Choi, igualmente estudante de Ciências Ambientais, acredita que experiências no terreno têm um impacto duradouro. Depois de participar pela segunda vez numa plantação de mangais, passou a observar regularmente as árvores e a fauna associada. “Sempre que passo por lá, vou ver os mangais. Muitas vezes encontro aves pousadas e foi assim que comecei a interessar-me por elas”, conta ao PLATAFORMA.

Durante a atividade, uma explicação simples acabou por lhe deixar uma reflexão mais ampla: “Ensinaram-nos que era preciso deixar espaço suficiente entre as plantas para que crescessem. Fez-me pensar em Macau, uma cidade densamente desenvolvida, onde também precisamos de dar espaço à natureza enquanto desenvolvemos a economia”.

Para Wilson, a relação entre ambiente e qualidade de vida tornou-se ainda mais evidente depois de uma viagem às Filipinas. “Pensava que Cebu seria mais quente do que Macau por estar mais perto do Equador, mas era mais fresca”. A explicação encontrou-a na paisagem: “As Filipinas têm muito mais vegetação, enquanto Macau é dominada por edifícios altos. Por isso, com o atual fenómeno extremo de El Niño, devemos prestar ainda mais atenção à proteção ambiental”. O estudante resume a ideia numa frase: “O que fizeres à natureza, ela devolver-te-á.”

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