Em Portugal, o mercado dos combustíveis funciona num regime de preços livres, o que significa que os valores praticados nos postos de abastecimento são definidos pelos operadores, tendo em conta fatores como o preço internacional do petróleo e dos produtos refinados, os custos de transporte, armazenamento, distribuição, impostos e margens comerciais.
No entanto, a legislação prevê mecanismos de intervenção pública quando estão em causa situações extraordinárias que possam afetar o interesse dos consumidores ou o funcionamento regular do mercado. Nesses casos, o Governo pode adotar medidas temporárias para limitar preços ou margens, desde que exista uma fundamentação baseada em razões económicas e de interesse público.
A intervenção direta nos preços não é, por isso, uma medida automática nem a primeira opção do Executivo. Antes de avançar, o Governo terá de avaliar se existem problemas na formação dos preços ou se os valores praticados pelas empresas estão justificados pela evolução dos custos.
É nesse contexto que surge a análise pedida à Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE). O regulador deverá avaliar a cadeia de formação dos preços, desde a aquisição dos combustíveis até ao valor final pago pelos consumidores, incluindo a evolução das margens das gasolineiras.
Uma medida usada em situações de crise
A fixação administrativa de preços é uma ferramenta que os governos podem utilizar em situações de exceção, mas tem sido pouco frequente em mercados liberalizados como o dos combustíveis. A intervenção estatal pode ser vista como uma forma de proteção dos consumidores, mas também levanta preocupações sobre possíveis impactos na concorrência e no funcionamento do mercado.
Nos últimos anos, perante a subida dos preços da energia, vários países europeus adotaram medidas para reduzir o impacto nos consumidores, embora muitas tenham passado por cortes fiscais, apoios diretos ou mecanismos temporários de compensação, em vez de uma fixação direta dos preços.
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Em Portugal, durante o período de maior pressão inflacionista provocado pela guerra na Ucrânia, o Estado optou sobretudo por medidas como a redução temporária do Imposto sobre Produtos Petrolíferos (ISP), a devolução de receitas fiscais adicionais e mecanismos de apoio aos consumidores.
Margens das gasolineiras no centro da polémica
A discussão atual centra-se sobretudo na diferença entre a evolução dos preços internacionais e a velocidade com que essa evolução chega aos consumidores. A chamada “assimetria” — subida rápida e descida lenta — tem sido uma das principais críticas apontadas ao setor.
As gasolineiras defendem que os preços não acompanham apenas o petróleo bruto, mas também a cotação dos produtos refinados, a taxa de câmbio entre o euro e o dólar, os custos logísticos e a carga fiscal.
Já o Governo quer perceber se as margens praticadas pelas empresas são proporcionais aos custos e se existe algum comportamento que justifique uma intervenção.
Caso a investigação da ERSE conclua que existe uma falha no funcionamento do mercado, o Executivo poderá avançar com medidas adicionais. Entre elas poderá estar uma limitação temporária de preços ou margens. Contudo, uma decisão desse tipo terá de ser justificada, proporcional e enquadrada na lei.
Para já, o Governo não anunciou qualquer congelamento dos preços dos combustíveis. A prioridade passa por perceber se o mercado está a funcionar corretamente e se os consumidores estão a pagar um valor adequado face aos custos reais da cadeia petrolífera.