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“Recuperação desequilibrada” da economia de Macau

A confiança dos consumidores melhorou no segundo trimestre, mas permanece abaixo do nível neutro e continua longe de traduzir uma recuperação consolidada. Henry Lei alerta que “a recuperação da economia continua, em termos gerais, a ser desequilibrada”, num contexto em que as PME não ligadas ao turismo enfrentam dificuldades e muitos residentes ainda recebem menos do que antes da pandemia

Fernando M. Ferreira

O Índice de Confiança dos Consumidores de Macau aumentou 1.25% no segundo trimestre de 2026, atingindo 97,99 pontos, segundo o mais recente inquérito da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST). A melhoria abrangeu os seis subíndices analisados – Economia local, Situação do emprego, Nível de preços, Nível de vida, Aquisição de habitação e Investimento em ações -, mas o resultado global continua abaixo dos 100 pontos, valor que assinala o limiar entre confiança e falta de confiança.

Os avanços mais expressivos foram registados nas avaliações relativas aos preços, ao emprego e ao nível de vida. Ainda assim, todos estes indicadores permaneceram em terreno negativo: o nível de preços ficou nos 89,49 pontos, a situação do emprego nos 91,87 e o nível de vida nos 97,99.

A confiança na aquisição de habitação e no investimento em ações, pelo contrário, manteve-se acima do nível neutro, com 106,27 e 110,68 pontos, respectivamente. Henry Lei associa estes resultados à isenção do imposto do selo na compra de habitação, que gerou “uma resposta positiva do mercado”, com um aumento significativo das transações no primeiro trimestre, e ao “desempenho relativamente positivo da Bolsa de Valores de Hong Kong” durante o mesmo período.

Mas estes sinais não se refletem de forma uniforme na economia: “A recuperação da economia de Macau continua, em termos gerais, a ser desequilibrada, enquanto o ambiente de negócios permanece difícil para as pequenas e médias empresas dos setores não ligados ao turismo”, afirma Lei ao PLATAFORMA. O economista acrescenta que “muitos residentes continuam também a auferir rendimentos inferiores aos registados antes da pandemia”, o que ajuda a explicar a persistente falta de confiança na economia local.

Recuperação ainda incerta

Lei nota que a subida da confiança coincidiu com um crescimento homólogo de 23% no valor total do consumo a retalho no primeiro trimestre. Para o economista, este resultado “representa uma melhoria significativa face a 2025” e “pode ser interpretado como uma recuperação em relação ao fraco desempenho do ano anterior”.

O papel do Governo deverá passar por melhorar as competências dos empresários, dotando-os da capacidade necessária para aplicar novos métodos de gestão e de marketing nas suas operações e explorar novas orientações para os respectivos negócios – Henry Lei, economista

Ainda assim, adverte que “poderá ser demasiado cedo para confirmar que se estabeleceu uma tendência de recuperação estável”, devido às profundas alterações no contexto macroeconómico mundial desde abril. Entre os principais fatores de risco, aponta uma inflação mais elevada, a manutenção de taxas de juro altas por um período prolongado e outras incertezas com impacto sobre o consumo e o investimento.

O inquérito da MUST classificou a evolução como uma “recuperação fraca”, marcada por expectativas frágeis a médio e longo prazo. O estudo, baseado nas respostas de 832 residentes, recomenda ao Governo que continue a “acompanhar a dinâmica de crescimento da economia local, a liquidez dos mercados imobiliário e bolsista e a estabilidade do emprego, e dos rendimentos no longo prazo”.

A instituição advertiu também para os “múltiplos desafios” que a economia do Interior da China enfrenta, incluindo uma “oferta forte acompanhada por uma procura fraca, uma recuperação lenta da procura interna, pressões sobre os custos importados e oscilações da procura externa”.

Apoiar PME e emprego

Henry Lei considera que a manutenção da estabilidade dos preços e a proteção do emprego local “devem ser encaradas como responsabilidades permanentes do Governo”. Estas medidas, sustenta, podem proporcionar mais oportunidades de trabalho aos residentes, melhorar o poder de compra e reforçar a confiança das famílias através de rendimentos mais estáveis.

O economista defende também que o Governo poderá voltar a lançar o programa de subsídios ao consumo durante a época baixa. A medida, que terminou em junho, foi, na sua leitura, “uma medida eficaz de curto prazo ou de natureza transitória”, ao estimular o consumo privado e canalizar a procura para as PME locais.

Preços mais estáveis poderão igualmente “incentivar os residentes a permanecerem em Macau para realizar as suas compras”, reduzindo a saída de consumo para as cidades vizinhas. Ainda assim, Lei entende que os apoios transitórios devem ser acompanhados por reformas estruturais capazes de reforçar a competitividade do tecido empresarial.

A recuperação da economia de Macau continua, em termos gerais, a ser desequilibrada, enquanto o ambiente de negócios permanece difícil para as pequenas e médias empresas dos setores não ligados ao turismo – Henry Lei, economista

“O papel do Governo deverá passar por melhorar as competências dos empresários, dotando-os da capacidade necessária para aplicar novos métodos de gestão e de marketing nas suas operações e explorar novas orientações para os respectivos negócios”, afirma.

Entre as prioridades, aponta a “utilização de tecnologias”, a “adopção de novos modelos de negócio” e o “lançamento de produtos e serviços”. Defende ainda “programas de formação” e de reforma de mais longo prazo destinados a apoiar a “transformação e a modernização das PME” locais.

Paralelamente, Lei considera que devem prosseguir as políticas de promoção do investimento, de forma a atrair investimento direto estrangeiro e favorecer a “instalação de novas atividades empresariais em Macau”, o que, afirma, “poderá produzir efeitos positivos no ambiente económico e de negócios da cidade”.

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