O mesmo estudo mostra que a inteligência artificial já faz parte dos hábitos de aprendizagem: cerca de 97% dos alunos inquiridos afirmaram ter recorrido a estas ferramentas como apoio aos estudos. A utilização generalizada contrasta, porém, com as reservas manifestadas pelos próprios estudantes sobre os efeitos de uma dependência excessiva.
Perante uma tecnologia que entrou rapidamente nas salas de aula e nos hábitos de aprendizagem, Montag distingue dois caminhos: usar a IA para evitar o trabalho intelectual ou integrá-la como instrumento ativo de aprendizagem.
“Há basicamente duas formas de utilizar a IA no setor da educação”, explica ao PLATAFORMA. “Uma forma é usar a IA como um atalho para resumir um texto, obter uma resposta rápida, entre outros usos. Isto, obviamente, não é bom a longo prazo”.
O risco, sustenta, surge quando a ferramenta deixa de apoiar o processo e passa a substituir tarefas essenciais para a construção do conhecimento. O professor dá como exemplo a própria atividade científica.
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“Eu não uso IA para deixar que faça a escrita dos meus artigos científicos. Escrever é pensar. Usar o IA para escrever os meus artigos levar-me-ia a um pensamento superficial. Isto é algo que não posso permitir enquanto académico”.
A escrita, acrescenta, não é apenas uma forma de apresentar ideias já concluídas. Faz parte do próprio processo de raciocínio, obrigando a organizar argumentos, identificar falhas e desenvolver uma posição própria.
“É fundamental que as pessoas desenvolvam um estilo de escrita único e uma voz criativa própria. Isso não acontece quando deixamos a IA escrever por nós. É preciso muita prática. Ler muito, escrever muito: é isso que ajuda a chegar à nossa própria voz”.
IA como parceiro
Montag não defende, porém, que a inteligência artificial seja afastada do ensino. Pelo contrário, considera que pode contribuir para a aprendizagem quando obriga o estudante a participar, responder e confrontar ideias. “A melhor forma de utilizar a IA – pelo menos como vejo neste momento – é usá-la como um parceiro de discussão”.

No contexto educativo, a tecnologia pode funcionar “como um professor que faz perguntas sobre determinado conteúdo para simular um exame” ou como uma ferramenta para “discutir ideias ou desafiar pensamentos”. “Esta utilização ativa da IA pode até levar a uma melhoria do pensamento crítico”.
O investigador alerta também para o risco de os utilizadores aceitarem respostas automáticas sem as verificarem ou confrontarem com outras fontes. “Confiar demasiado facilmente na resposta de um grande modelo de linguagem, sem refletir sobre ela, pode levar à disseminação massiva de desinformação. E a constante externalização do pensamento certamente não treina o pensamento crítico”.
Uma tecnologia com muitos efeitos
Para Montag, não é possível avaliar o impacto da inteligência artificial através de conclusões gerais sobre os benefícios ou os riscos da tecnologia.
“A IA é uma tecnologia de uso geral, integrada em muitos produtos, desde assistentes de linguagem em smartphones até automóveis autónomos e grandes modelos de linguagem [LLM, na sigla em inglês]”, afirma ao PLATAFORMA.

A análise deve ter em conta o perfil do utilizador, a forma de interação com o sistema, o contexto em que é utilizado e as diferenças sociais e culturais. “Precisamos de considerar muitos fatores para compreender o impacto da IA nos utilizadores e na sociedade”, explica o investigador.
No seu artigo “From AI Psychosis to Brain Rot: How pseudo-diagnoses endanger genuine psychological and medical discovery in challenging times”, Montag analisa a forma como conceitos alarmistas associados à tecnologia podem dificultar a compreensão científica dos seus efeitos.
Segundo o investigador, a chegada de novas tecnologias é frequentemente acompanhada por receios de deterioração social, cognitiva ou psicológica. “Sempre que uma nova tecnologia é introduzida na sociedade, esta tende a reagir com pânicos morais”, referindo exemplos como as “bandas desenhadas”, a “televisão”, os “videojogos” e, mais recentemente, as “redes sociais”.
Montag reconhece que alguns riscos tecnológicos são reais: “Nem todas as preocupações são infundadas”, acrescenta, recordando que a Organização Mundial da Saúde reconhece oficialmente a perturbação dos videojogos (Gaming Disorder). O problema, argumenta, está em transformar preocupações legítimas em diagnósticos vagos ou expressões sensacionalistas. “Termos alarmistas como Brain Rot [Deterioração cerebral] ou AI Psychosis [Psicose da IA] não são úteis e podem até ser enganadores”.
A utilização da inteligência artificial não conduz, por si só, ao aparecimento de perturbações psicológicas. Montag rejeita uma relação direta e universal entre exposição tecnológica e deterioração da saúde mental: “As ideias erradas sobre a utilização da IA e a saúde mental passam pela noção de que usar tecnologia conduz, de uma forma monocausal, à deterioração da saúde mental. Sabemos que é muito mais complexo do que isso”.
Problemas de saúde mental resultam normalmente da interação entre vários fatores, incluindo predisposição genética, experiências adversas, estilos parentais e historial psicológico. “Por isso, afirmar que a utilização da IA conduz, em geral, a problemas é um exagero”.
Ainda assim, o investigador considera necessário estudar com maior profundidade os efeitos de sistemas cada vez mais personalizados e capazes de simular proximidade emocional. Nos próximos cinco anos, uma das prioridades deverá ser compreender como utilizar a IA “para se tornarem mais produtivas e melhorarem a sua aprendizagem”, sem cair na “externalização cognitiva” permanente.
Ao mesmo tempo, Montag defende que os sistemas devem ser concebidos de forma a “não explorem o universo emocional dos utilizadores, criando dependências relacionais com a IA”. “Como seres humanos, continuamos a ser criaturas sociais na era da inteligência artificial”, conclui.
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Uma governação global para a IA
A discussão sobre inteligência artificial estende-se também à governação internacional. A propósito da Conferência Mundial de Inteligência Artificial (WAIC, na sigla em inglês), realizada em Xangai, e da proposta apresentada pelo Presidente chinês, Xi Jinping, para criar a Organização Mundial para a Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO, na sigla em inglês), Montag considera que a iniciativa surge no momento certo. “Penso que a iniciativa apresentada por Xi Jinping é muito oportuna. Também vejo a necessidade de uma abordagem supranacional à governação da IA, criando oportunidades decorrentes da revolução da inteligência artificial em todo o mundo e, ao mesmo tempo, garantindo que sistemas de IA seguros sejam implementados”. Na sua perspetiva, “a WAICO pode ser vista como um começo importante”, acrescentando esperar que “mais países se juntem” à iniciativa.