Início » “Cinco línguas” ligam Macau a Curitiba

“Cinco línguas” ligam Macau a Curitiba

Macau estreia-se na Bienal Internacional de Curitiba com uma obra de Bianca Lei construída a partir das "cinco línguas" que coexistem na cidade. Ao cruzar identidade, memória e linguagem digital, a artista acredita que o trabalho pode encontrar eco junto do público brasileiro: “Esta obra também menciona a interferência ou o impacto da linguagem da internet no nosso ambiente. O mundo inteiro está digitalizado, por isso, além do contexto histórico, há coisas que acontecem em todo o mundo, e sinto que todos vão sentir uma certa ressonância”

Carol Law

Macau participa pela primeira vez na Bienal Internacional de Curitiba, um dos maiores e mais antigos eventos de arte contemporânea da América Latina, com um pavilhão próprio e obras que procuram colocar a identidade, a memória e a diversidade cultural da cidade em diálogo com o público brasileiro.

Realizada pela primeira vez em 1993, a bienal chega este ano à 16.ª edição. Sob o tema “Limiares”, a exposição aborda questões contemporâneas relacionadas com fronteiras, transição e transformação, incluindo a linha cada vez mais ténue entre a humanidade e a tecnologia.

A edição deste ano reúne mais de 300 artistas de 38 países, com trabalhos distribuídos por vários espaços da cidade. Inaugurada a 14 de junho, prolonga-se até 15 de novembro e integra as atividades do “Ano Cultural China-Brasil” de 2026.

O convite representa também a entrada de Macau no circuito das bienais latino-americanas. No Pavilhão de Macau, a exposição “Matéria, Corpo e Linguagem”, com curadoria do Museu de Arte de Macau, organismo tutelado pelo Instituto Cultural, apresenta obras de Peng Yun, Bianca Lei e da artista chinesa Gao Fuyan.

Leia também: Patuá para todos

Os três trabalhos, ou conjuntos de trabalhos, foram originalmente encomendados para a exposição “Estou Aqui – Helena Almeida: Presença e Ressonância”, realizada em 2026, e para a exposição principal da “Arte Macau – Bienal Internacional de Arte de Macau”, em 2025. Em Curitiba, foram reorganizados a partir do tema “Limiares”.

Cinco línguas de Macau

A obra de Bianca Lei, A Hodgepodge of “Cinco Língu- Língu”, foi criada para a Arte Macau de 2025, cuja exposição principal teve como tema “Olá, o que vieste cá fazer?”.

A artista explica que partiu dessa saudação coloquial para desenvolver uma reflexão sobre a identidade linguística e cultural da cidade. “Uma grande parte das minhas obras está relacionada com o ambiente e a cidade onde me encontro, por isso queria fazer um trabalho sobre Macau”, diz ao PLATAFORMA. “O tema era uma pergunta, então comecei pela linguagem de Macau”.

Desde o século XVI, Macau tem sido uma cidade de contacto entre diferentes culturas orientais e ocidentais. Essa convivência criou uma sociedade marcada pela sobreposição de referências, pertenças e identidades, refletida tanto nas práticas quotidianas como nas línguas utilizadas pela população.

A exposição “Matéria, Corpo e Linguagem”, liderada pelo Instituto Cultural de Macau e com curadoria do Museu de Arte de Macau, foi inaugurada com grande destaque no Pavilhão de Macau, no Museu Oscar Niemeyer, o recinto principal da 16.ª Bienal Internacional de Curitiba. (Foto: Bianca Lei)

Para Bianca Lei, a “pluralidade linguística” constitui uma das “expressões mais evidentes” desse percurso. A maioria da população chinesa comunica em cantonense, enquanto o mandarim tem vindo a ganhar presença. O “português” permanece ligado à “história e ao sistema administrativo” da cidade, a par do “patuá macaense, e claro, o inglês”.

A partir desta realidade, a artista criou uma instalação multimédia composta por cinco ecrãs, cada um associado a uma das línguas presentes na cidade.

“Macau mistura cinco línguas, e estas cinco línguas representam certos grupos étnicos, como os chineses, os portugueses, os macaenses ou alguns estrangeiros, representando também o contexto histórico de Macau. Portanto, a obra procura explorar a relação entre a língua e a nossa identidade”, explica.

Ressonância no Brasil

A apresentação da obra em Curitiba aproxima duas cidades separadas pela distância, mas ligados pela língua portuguesa e por experiências históricas marcadas pelo encontro de culturas.

A obra “Matéria, Pedra, Aldeia de Sardaban” de Peng Yun. Esta obra foi originalmente encomendada para a exposição “Estou Aqui – Helena Almeida: Presença e Ressonância” em Macau, no ano de 2026. No vídeo, a artista apanha uma pedra comum, lava-a e cobre-a com folha de ouro. Segundo uma publicação online do Museu de Arte de Macau, “o ‘limiar’ surge silenciosamente: a resposta não está na velocidade, mas na pausa; não na eficiência, mas naquela pedra silenciosa”, e “a recriação da obra hoje em terras latino-americanas realça ainda mais a tensão do diálogo intercultural”. (Foto: Museu de Arte de Macau)

“Uma parte da minha obra é em português. O Brasil foi uma colónia de Portugal, e eles também têm portugueses e até macaenses a viver lá, por isso vão interessar-se por estas coisas”, diz ao PLATAFORMA.

A ligação com o público brasileiro não depende, porém, apenas da presença do português. A instalação incorpora também formas de comunicação associadas à internet e à crescente digitalização das sociedades, criando uma linguagem reconhecível para além do contexto específico de Macau.

“Esta obra também menciona a interferência ou o impacto da linguagem da internet no nosso ambiente. O mundo inteiro está digitalizado, por isso, além do contexto histórico, há coisas que acontecem em todo o mundo, e sinto que todos vão sentir uma certa ressonância”.

Esta é a primeira vez que Bianca Lei apresenta o seu trabalho no Brasil. A participação permitiu-lhe contactar com artistas e práticas culturais da América Latina, uma região com a qual admite ter tido pouca relação até agora: “Raramente tenho contacto com artistas latino-americanos. Eles incorporam alguma cultura afrodescendente nas suas obras, algo com que tenho pouco contacto”, afirma.

A obra “Fragmentos do Tempo – Teatro de Rostos” de Gao Fuyan. Esta instalação é uma das obras mais interativas desta edição da bienal. A obra também foi exibida na exposição “Estou Aqui – Helena Almeida: Presença e Ressonância” em Macau. Segundo uma publicação online do Museu de Arte de Macau, “a obra questiona agora no Brasil uma ansiedade global comum: na era em que o reconhecimento facial está omnipresente, o nosso rosto ainda nos pertence?” (Foto: Museu de Arte de Macau)

Além da exposição, a organização promoveu visitas a museus e instituições culturais de Curitiba. A artista destaca a forma como essas instituições articulam a criação contemporânea com a história colonial e as culturas indígenas, evitando uma leitura exclusivamente centrada no passado.

“Eles não querem apenas ver a história, querem muito usar novas perspetivas para rever a história, rever a colonização do passado e até a cultura indígena. Pessoalmente, acho que, como o contexto deles é um pouco semelhante ao de Macau, isso é uma grande particularidade para mim”.

Para Bianca Lei, essa vontade de reinterpretar a história aproxima a “experiência brasileira de algumas das questões presentes em Macau”, onde “identidade”, “colonização”, “memória” e “convivência cultural” continuam a atravessar a criação artística.

Internacionalização limitada

Apesar da função de Macau como plataforma entre a China e os Países de Língua Portuguesa, os artistas locais continuam a ter uma presença reduzida no Brasil e noutros mercados lusófonos.

A Hodgepodge of “Cinco Língu- Língu”, de Bianca Lei (Foto: Bianca Lei)

Bianca Lei associa essa dificuldade à “estrutura do setor artístico local”. Muitos profissionais não trabalham a tempo inteiro nas artes e Macau “não dispõe de um sistema consolidado de galerias” capaz de “representar e promover artistas de forma regular no exterior”.

Sem essa rede de apoio, as oportunidades internacionais dependem frequentemente de projetos institucionais ou de convites pontuais. Por essa razão, “os artistas locais valorizam particularmente cada possibilidade de apresentar trabalho fora de Macau, independentemente de a exposição decorrer ou não num país lusófono”.

Nos últimos anos, uma parte significativa dessas oportunidades tem sido criada através de iniciativas promovidas pelo Governo, incluindo a Arte Macau e a participação na Bienal de Veneza. A estreia na Bienal Internacional de Curitiba acrescenta agora um novo destino a esse percurso.

A artista espera que a presença em Curitiba não seja isolada e que Macau volte a participar na próxima edição: “Acho que ter esta oportunidade é algo muito positivo. Se os artistas de Macau puderem ir, vão valorizar muito”.

Na sua perspetiva, existe também interesse do lado brasileiro em desenvolver relações culturais e institucionais com a Ásia, num processo em que Macau pode assumir um papel de ligação. “Acho que Macau também é um dos objetivos deles, devido ao contexto de Macau como plataforma sino-lusófona”.

Mais do que apresentar uma obra no Brasil, a participação permitiu à artista observar novas formas de trabalhar a memória, a identidade e o contexto cultural através da arte contemporânea.

“Os artistas de lá são excelentes. Pode-se ver pelas cores como expressam o seu contexto cultural. Acho que a aprendizagem desta vez foi boa, foi uma viagem muito enriquecedora”, conclui.

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website