Cem dias não bastam para mudar uma relação económica. Mas podem chegar para mostrar uma direção. A aplicação de tarifas zero pela China a produtos de 53 países africanos ainda está no início, mas os primeiros sinais são claros: há mais produtos africanos a entrar no mercado chinês, há empresas a rever planos de exportação e há países a olhar para Pequim não apenas como financiador, mas como destino de consumo.
Num mundo cada vez mais fechado, isso não é detalhe. O comércio internacional vive hoje entre tarifas, sanções, guerras comerciais e disputas estratégicas. A linguagem dominante deixou de ser a abertura e passou a ser a proteção. Nesse contexto, a decisão chinesa tem valor económico, mas também valor político: mostra que abrir mercado pode ser uma forma de influência tão poderosa como financiar infraestruturas.
Numa altura em que tantas potências fecham portas, a China abriu uma. Para África, o desafio é transformar acesso em desenvolvimento. Para Pequim, é provar que abertura não significa apenas influência, mas parceria
Para África, a oportunidade é evidente. O continente precisa de acesso, escala e previsibilidade. Precisa de mercados capazes de absorver os seus produtos e de criar incentivos para empresas, agricultores, exportadores e cadeias logísticas. A China oferece, neste momento, uma porta de entrada que muitas economias africanas há muito procuram. Cem dias depois, a pergunta já não é se a medida tem potencial. Tem. A pergunta é até onde esse potencial pode ir.
Mas cem dias são apenas um primeiro sinal, não uma conclusão. O aumento das importações chinesas mostra que a medida começou a produzir efeitos, mas o verdadeiro alcance da tarifa zero dependerá da sua continuidade. Para os países africanos, a vantagem não está apenas em vender mais nos primeiros meses; está em saber se esta abertura cria uma relação comercial mais previsível, capaz de dar confiança a produtores, exportadores e investidores.
Ainda assim, há uma diferença importante entre promessa e mecanismo. Muitos discursos sobre cooperação com África ficam presos em declarações de intenção. A redução tarifária tem outro peso: altera preços, muda incentivos e cria uma expectativa de continuidade. Para quem exporta, saber que existe uma política estável de acesso ao mercado chinês pode ser tão importante como a própria eliminação da tarifa.
Também para Pequim, estes cem dias são um teste. Se a China quer apresentar a sua relação com África como alternativa a uma ordem económica dominada pelo Ocidente, terá de provar que a abertura é acompanhada por regras claras, benefícios partilhados e respeito pelas prioridades africanas. Influência duradoura não se constrói apenas com volume de comércio. Constrói-se com confiança.
O balanço destes primeiros cem dias deve, por isso, ser prudente. Não é ainda uma transformação. Mas é mais do que um gesto simbólico. Numa altura em que tantas potências fecham portas, a China abriu uma. Para África, o desafio é transformar acesso em desenvolvimento. Para Pequim, é provar que abertura não significa apenas influência, mas parceria.
Cem dias depois, a política começa a mostrar resultados. O verdadeiro teste será perceber se, daqui a cem semanas, ainda estará a produzir futuro.