Estamos habituados a celebrar o turismo em milhões. Mais visitantes, mais entradas nas fronteiras, mais recuperação. Os números são importantes… se criarem valor.
Quase seis em cada dez visitantes não pernoitaram em Macau em 2025; parte da procura hoteleira desloca-se para Zhuhai e Hengqin, onde há mais oferta, preços competitivos e ligações cada vez mais simples (ver página 5).
Não se trata de uma anomalia passageira. É a consequência previsível de uma região mais integrada, na qual o visitante combina Macau, Zhuhai e Hengqin numa mesma viagem, escolhendo onde ficar de acordo com o preço, a conveniência e a experiência.
Mas estas regiões podem complementar a RAEM. Se Macau souber adotar um modelo onde a integração não se transforme numa paragem breve.
Macau não conseguirá responder a esta mudança apenas com quartos mais baratos. Uma guerra de descontos pode melhorar a ocupação no imediato, mas destrói margem, desgasta marcas e dificilmente cria fidelização. Também não faz sentido tentar competir com Zhuhai em escala ou preço. Macau precisa de competir naquilo que só a cidade pode oferecer.
O verdadeiro desafio não é convencer o visitante a dormir na cidade. É dar-lhe razões para ficar mais tempo, gastar mais, diversificar os seus gastos e, sobretudo, regressar. Isso exige uma experiência que não comece à porta dos resorts, nem termine depois do jantar.
Temos de ter programação noturna, eventos regulares, gastronomia, comércio, cultura e bairros com identidade própria. Não como decoração ou obrigação, mas como parte de uma experiência urbana coerente.
O verdadeiro desafio não é convencer o visitante a dormir na cidade. É dar-lhe razões para ficar mais tempo, gastar mais, diversificar os seus gastos e, sobretudo, regressar
Um excursionista pode atravessar a cidade, tirar fotografias, fazer uma refeição rápida; talvez compre um saco de bolos. O seu impacto na economia foi irrelevante. Quarenta milhões de visitantes podem impressionar. Mais impressionados ficam os comerciantes, que praticamente não os veem.
O turismo não se pode reger pelo volume; tem de primar pela sua qualidade – olhar para as receitas que produz. Macau dispõe de empresas, associações e instituições capazes de apoiar essa estratégia. O que falta é coordenação, e disponibilizar dados, que certamente existem, mas que ficam na esfera dos gabinetes públicos e das direções das concessionárias.
Macau não precisa de contar mais turistas. Precisa de fazer com que cada visita conte mais.