Macau não parte do zero na relação cultural com a Lusofonia. Pelo contrário. Ao longo do ano, há festivais, semanas culturais, encontros literários, exposições, concertos, celebrações e iniciativas gastronómicas que trazem à cidade artistas, escritores e criadores de vários Países de Língua Portuguesa. Há trabalho feito, instituições envolvidas e uma dimensão cultural que, dentro da escala da cidade, não pode ser ignorada. O problema está no que acontece depois.
Demasiadas iniciativas parecem medidas a vulso: começam, cumprem o programa e terminam sem deixar uma relação proporcional ao esforço realizado. Durante alguns dias, Macau apresenta-se como espaço de encontro entre a China e a Lusofonia. Depois, cada parte regressa ao seu lugar e a ponte fica praticamente vazia até ao evento seguinte.
Muitos destes acontecimentos conseguem trazer a Lusofonia a Macau, mas são raros os casos em que Macau segue o caminho inverso. Artistas, exposições e projetos chegam à cidade, mas poucas vezes são depois apresentados, replicados ou desenvolvidos nos países de origem. A circulação existe, mas é desigual. A ponte funciona sobretudo como entrada, muito menos como saída.
É por isso que a presença de Macau numa grande bienal brasileira tem um significado especial. Não apenas pelo prestígio do evento, mas porque representa um movimento no sentido contrário: Macau deixa de ser apenas o palco que recebe e passa também a ocupar espaço cultural no exterior. É um passo importante.
A função de plataforma não pode limitar-se a organizar encontros. Tem de criar consequências. Uma exposição deve poder gerar novas exposições; uma residência artística, novas colaborações; um festival, traduções, edições, coproduções ou circulação de artistas. Sem essa continuidade, a diplomacia cultural arrisca tornar-se uma sucessão de boas fotografias, discursos corretos e resultados difíceis de medir.
Também importa perguntar a quem chegam estes eventos. O verdadeiro intercâmbio acontece quando envolvem públicos chineses, escolas, universidades, associações locais e novos criadores. Sem essa abertura, celebra-se a presença lusófona, mas não se aprofunda necessariamente a relação.
Há ainda a questão dos meios. Muitos projetos têm ambição superior ao financiamento, à promoção e à capacidade de circulação que recebem. Exige-se impacto internacional com recursos de alcance local. Depois, confunde-se a falta de repercussão com falta de qualidade, quando muitas vezes o que faltou foi estratégia para prolongar a vida do projeto.
Macau já construiu parte da ponte. O desafio agora é fazê-la funcionar nos dois sentidos e para além da duração de cada evento. Porque uma ligação cultural só se torna real quando produz memória, repetição e futuro. Sem isso, a ponte existe – mas desaparece assim que se apagam as luzes.