A representante da Jendayi Moçambique, organização não-governamental dedicada ao fortalecimento dos valores democráticos, defendeu a criação de um programa nacional de literacia digital para capacitar os jovens sobre o uso das tecnologias no exercício da cidadania.
Iva Sitoe falava, em Maputo, como oradora no painel subordinado ao tema “Da participação política tradicional ao engajamento digital da juventude: que avanços para a democracia?”, durante o lançamento da “Série de diálogos sobre juventude e democracia”, iniciativa que visa debater a participação juvenil, a cidadania digital e o papel dos jovens na consolidação da democracia e da paz em Moçambique.
Segundo a representante, a juventude moçambicana enfrenta desafios na sua participação democrática que minam a confiança dos cidadãos nas organizações de representação juvenil e nos espaços de tomada de decisão, sobretudo através das plataformas digitais, propondo, por isso, a difusão da educação para a democracia nas escolas e universidades.
“A segunda proposta seria um programa nacional de literacia digital. É importante ensinar todos os jovens a fazer uso das ferramentas digitais para que possam participar na democracia de forma correta”, apontou Iva Sitoe, considerando esta medida essencial para reduzir a falta de conhecimento sobre a utilização das tecnologias no país.
Leia também: Chapo pede aos jovens de Moçambique uma “independência económica” pela tecnologia. Novo programa ainda não tem verba definida
No evento organizado pelo Instituto para a Democracia Multipartidária (IMD), em articulação com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), em Maputo, Sitoe apelou ao envolvimento dos jovens na influência das políticas públicas.
“Cada um de vós aqui é convidado a fazer esse exercício de saber ou entender melhor a literacia digital no âmbito da democracia e da cidadania”, acrescentou Iva Sitoe.
O debate procura refletir sobre as condições necessárias para uma participação juvenil mais efetiva, inclusiva, crítica e responsável, num contexto de “profundas” transformações nas formas de os jovens acederem à informação, expressarem as suas opiniões e mobilizarem-se, sobretudo através das plataformas digitais.
Já o representante da União Nacional dos Estudantes (UNE), Duarte Amaral, desafiou a sociedade civil e as organizações juvenis a reforçarem e intensificarem a formação cívica, visando cultivar entre os jovens os pressupostos democráticos, tanto na sua dimensão prática como legislativa.
Duarte Amaral apontou ainda a implementação de comunidades participativas como uma das iniciativas capazes de aumentar a influência dos jovens no desenvolvimento comunitário.
“O que nós queremos é um sistema político que nos permita conviver e ter um ambiente cada vez mais pacífico, tanto no plano político como no social”, referiu Amaral.
O representante da UNE apontou ainda o surgimento de uma dependência institucional, em que, explicou, a juventude é levada a sentir-se dependente das instituições nos processos de tomada de decisão que visam desenvolver o país.
“Há uma vulnerabilidade política assente naquilo que é o hiato presidencialista, que não permite que existam maiores mecanismos para o envolvimento da juventude, de atores e de organizações juvenis nos espaços de tomada de decisão, o que seria também uma forma de promover a democracia”, explicou.
Para Duarte Amaral persistem ainda desafios estruturais e culturais, que dividiu em fatores socioeconómicos e culturais e fatores psicológicos, que contribuem para o afastamento dos jovens dos centros de decisão.
“A juventude é literalmente marginalizada e politicamente afastada dos espaços de tomada de decisão, porque há aquilo que os cientistas políticos chamam de dependência do passado, no sentido de que a juventude atual não possui estruturas suficientemente capazes de responder aos desafios que os Estados modernos apresentam”, acrescentou Amaral.